|
A TORTURA DA BURRICE |
|
BLOG DO NOBLAT 01/11/08 RUY FABIANO O
tema da revisão da Lei de Anistia, para enquadramento dos que praticaram
tortura ao tempo do regime militar, encerrado há 25 anos, voltou à ordem do
dia. O
ponto agora é que a Advocacia Geral da União (AGU), por força de suas
atribuições institucionais, assumiu a defesa formal do coronel Carlos Alberto
Brilhante Ustra, acusado de comandar uma célula do
regime que praticava a tortura. Como
o coronel era uma figura do Estado, acusado de um delito enquanto agente
estatal, a AGU tem a obrigação institucional de representá-lo em processo
dessa natureza. E ele reclamou essa prerrogativa. O ministro da Secretaria
dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, e o da
Justiça, Tarso Genro, reagiram. Querem que a AGU recuse a defesa, o que
significaria desobedecer seu estatuto. A discussão
passa por cima do essencial: a Lei de Anistia. Ela,
goste-se ou não, revogou aqueles crimes. A
condenação moral está dada: os personagens identificados como torturadores ou
patronos deles, estão alijados do processo político há muito tempo. Mas a
condenação penal está impedida pela Lei de Anistia. A lei que considerou
tortura como crime imprescritível é posterior, de 1997 (a de anistia é de
1979). E há um princípio legal segundo o qual uma lei não retroage para
prejudicar. Portanto, o coronel está coberto por ela – mais uma vez,
goste-se ou não disso. Mexer
na Lei de Anistia significa quebrar um pacto político que tem propiciado um quarto
de século sem a intervenção dos militares na política. É o mais longo período
de absenteísmo militar da história republicana brasileira, o que mostra a
eficiência daquele pacto. Os perseguidos do regime militar estão hoje no
poder e têm as Forças Armadas, seus adversários de então, sob controle. Mudar
esse panorama, em nome do que quer que seja, é, acima de tudo, burrice. Esse
é também o raciocínio de um ilustre ex-exilado, o cientista político,
escritor, jornalista e professor Luiz Alberto Moniz
Bandeira. Biógrafo
de João Goulart, a quem acompanhou no exílio, e autor de vasta obra no campo
da historiografia política – entre as quais o monumental
“Formação do Império Americano” -, Moniz
Bandeira pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ser um conservador (o
que, diga-se, não o deslustraria). Pois
bem: em entrevista à revista Cult, que está nas bancas, ao ser indagado sobre
a circunstância de o Brasil, ao contrário de seus vizinhos sul-americanos,
não ter punido os que torturaram, responde o seguinte: “Não
faz sentido pretender a revisão da Lei de Anistia, reabrir feridas
cicatrizadas, depois de quase 30 anos. E não se pode comparar o regime
militar no Brasil com o que foi implantado na Argentina e no Chile, onde
houve milhares de mortos e desaparecidos. No Brasil, houve torturas, abuso de
direitos humanos, mas em escala muito menor que nesses outros países. Claro
que não podem ser justificados, mas uma lei de anistia não pode ser parcial.
Se houve anistia para os que se rebelaram, empunharam armas contra a
ditadura, seqüestraram diplomatas e outros crimes políticos, a lei não pode
excluir do benefício os que empreenderam a repressão.” Moniz
sabe bem do que fala. Acaba de publicar longo estudo sobre os regimes
militares da América Latina, nas décadas de 60 e 70 – “Fórmula
para o Caos – A Derrubada de Salvador Allende”. O ministro Tarso
Genro, que já foi desautorizado pelo presidente Lula nessa iniciativa, e o
ministro Vanucchi, deveriam lê-lo. Se estão
efetivamente preocupados com os direitos humanos, devem intervir nas
delegacias de polícia de todo o país, que praticam rotineiramente a tortura.
Como não há o mesmo glamour político quando se trata de gente anônima e sem
recursos para dispor de um advogado, opta-se por revolver o passado. Não
há dúvida de que a tortura constitui uma anomalia, que merece condenação
moral permanente, o que nenhuma lei é capaz de impedir (e não está
impedindo). Mas, fabricar uma crise política, com vistas a uma conjuntura de
três décadas atrás, enquanto a conjuntura presente já oferece desafios mais
que suficientes, é inexplicável, a não ser pela lógica do factóide. Anistia
é “perpétuo esquecimento”. É irrevogável, o que não exclui o que
dela disse o impagável Barão de Itararé: é um perdão que o governo concede
aos crimes que ele mesmo cometeu. |