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MILITAR QUE COMBATEU NO
ARAGUAIA ADMITE QUE 'A ORDEM ERA MATAR' |
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AGÊNCIA
BRASIL 03/12/08 "A ordem era matar e perguntar
depois”, disse o ex-chefe do grupo de combatentes do Exército na
Guerrilha do Araguaia, José Vargas Jimenez, em depoimento, nesta
quarta-feira, na Comissão sobre Anistia na Câmara dos Deputados. Na época da
guerrilha, Chico Dólar, apelido pelo qual era conhecido, era 3° sargento do
Exército. Ele confessou hoje ter torturado várias
pessoas e deu detalhes do tratamento dispensado àqueles que não resistiam e
morriam. - Como não podíamos carregar os mortos
pela selva, a gente deixava pelo caminho. A única precaução era cortar a
cabeça e as duas mãos para impossibilitar a identificação da vítima -
relatou. O depoimento de Jimenez provocou reação
em familiares de vítimas da Ditadura Militar, que acompanharam a reunião.
Alguns chegaram a interromper o depoimento chamando o ex-militar de
torturador e se indignaram no momento em que ele disse acreditar que tem
direito de receber uma indenização do Estado devido aos serviços prestados
durante a guerrilha. - Eu sou um herói do Araguaia. Eu acho
que mereço uma indenização. Trabalhei lá por seis anos - disse o militar que
atualmente está na reserva. - Foi uma guerra. Guerra é guerra e afeta todo
mundo. Sei que tem gente sofrendo. Do nosso lado [Exército] também tem gente
sofrendo - justificou. Para o deputado Fernando Ferro (PT-PE),
o depoimento de Jimenez trouxe informações importantes que poderão ser
cruzados com dados que a comissão já reuniu. - Ele trouxe um número de mortos que é
bem maior do que nós tínhamos informações. Além disso, pela primeira vez, ele
reconheceu que torturou e que, além de militantes, houve também camponeses
mortos - destacou o deputado. Jimenez chegou a citar nomes de pessoas,
cuja morte ele disse ter presenciado no Araguaia, ressalvando que saiu da
guerrilha muito antes dela terminar e por isso não tinha condições de saber
se algumas pessoas tidas hoje como desaparecidas realmente foram mortas. Entre os nomes citados por Jimenez estão
o Piauí (Antônio de Pádua), até hoje dado com desaparecido, Zezinho, que
seria um camponês assassinado em meio a guerrilha, e
outras pessoas conhecidas pelos pseudônimos de Alfredão,
Nunes e Sônia. O ex-militar ainda deu uma outra versão
para a morte do líder Oswaldão, que após ser morto,
teve o corpo arrastado por um helicóptero do Exército por toda região do
Araguaia. - Ele caiu do helicóptero e ficou preso
pela corda. Aí resolveram [os militares] arrastá-lo para mostrar para todos
que ele havia sido morto. Em seu depoimento, Jimenez chegou a
citar integrantes do governo como pessoas que lutaram contra a Ditadura
Militar e que estavam na lista de pessoas procuradas pelo Exército. - Muitos do que estão aí hoje no poder
eram combatentes. A ministra Dilma [Dilma Rousseff, da Casa Civil],
Tarso Genro [Justiça] e o Minc [Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente] eram todos procurados -
destacou. Outro nome citado por Jimenez em seu
depoimento foi o do coronel Sebastião Rodrigues de Moura, o Sebastião Curió,
que era responsável pelo trabalho de inteligência militar no combate à
guerrilha. Ele utilizava as informações obtidas de guerrilheiros capturados
por meio de tortura. Curió foi para o sul da Amazônia para
combater nas décadas de 1960 e 1970, e nunca mais retornou, virando liderança
política na região. Ele chegou a fundar a cidade de Curionópolis,
no sul do Pará, da qual foi prefeito. |