PROCURADORA: DEFESA DE
TORTURADOR É DECEPCIONANTE
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TERRA
MAGAZINE 04/11/08
DIEGO
SALMEN O governo precisa de uma postura institucional clara
em relação aos crimes cometidos pela ditadura militar. Essa é a avaliação da
procuradora Eugênia Fávero, do Ministério Público Federal de São Paulo. - Me parece que falta uma postura clara por parte da
cúpula. Eu não vi o Lula se pronunciar sobre isso. Fávero assinou documento em resposta a um parecer
elaborado pela Advocacia Geral da União (AGU), pelo qual os crimes de tortura
perpetrados durante a ditadura militar (1964-1985) são considerados
perdoados. O órgão vai no sentido
contrário àquele sustentado pelo Ministério da Justiça e pela Secretaria
Especial de Direitos Humanos - favoráveis à responsabilização. O parecer da AGU foi anexado ao processo requisitado
pelo Ministério Público Federal de São Paulo. Nele, pede-se a
responsabilização dos militares reformados Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel,
comandantes do DOI-Codi
durante a ditadura, pela morte, tortura e desaparecimento de 64 pessoas. Em entrevista a Terra Magazine, a procuradora comenta o parecer da AGU, e alerta
que o Brasil pode ser punido caso a posição sobre o tema não seja revista. - Se a Justiça brasileira admitir esse tipo de postura
por parte do poder público, o Brasil vai estar sujeito, sim, a sanções
internacionais. Leia a seguir a entrevista com a procuradora Eugênia
Fávero: Terra Magazine - Como a
senhora considera o parecer da AGU? Eugênia Fávero - Nós consideramos decepcionante eles terem
apresentado uma contestação. Eles poderiam concordar com a propositura da
ação e ficar junto com o Ministério Público contra os demais réus, que são os
ex-comandantes do DOI-Codi.
Essa foi uma decepção. Ela (a AGU) apresentou defesa inclusive contra os
pedidos em relação a esses réus, pessoas físicas. Nós pedimos apenas que o
juiz declarasse a omissão da União nesse assunto, que é um pedido
declaratório em relação à União. E a AGU, ao invés de contestar os pedidos
declaratórios, contestou também os pedidos condenatórios que são dirigidos a
essas pessoas físicas. Nesse sentido, nós consideramos que ela partiu em
defesa dos torturadores, e vai contra os interesses da própria União, porque
a ação pede a recomposição do patrimônio público. Então, na prática, o órgão fez a defesa dos
torturadores. Exatamente, porque os pedidos condenatórios de
reposição do patrimônio público eram direcionados apenas a eles
(torturadores), e não à União. Ela não precisava ter contestado esses outros
pedidos. Alguns órgãos do governo são mais progressistas em
relação a questões relacionadas à ditadura militar, enquanto outros são mais
conservadores. Como a senhora vê essa dualidade? O Ministério Público não é um órgão do governo, e
trabalha fundamentado na Constituição. Em relação à dualidade, me parece que
falta uma postura clara por parte da cúpula. Eu não vi o Lula se pronunciar
sobre isso. Eu acho que falta uma postura institucional. A AGU também baseou seu parecer na Constituição.
Como fica essa questão, por esse viés? Ela se equivoca ao dizer que a Constituição não poderia...Ela faz a seguinte construção: a não prescrição
da tortura não retroage. Acontece que nós não estamos utilizando esse
fundamento da Constituição. Nós não utilizamos a imprescritibilidade da
tortura pela norma atual, nós tratamos esse ato como um crime de
lesa-humanidade de acordo com normas internacionais às quais o Brasil já
estava sujeito na época. A Constituição hoje determina que o Brasil observe
os princípios gerais inclusive do direito internacional. No Brasil, pelo
direito interno, à época tortura não era crime imprescritível. Mas pelas
normas internacionais, atos desse tipo do governo contra a população civil
por motivos políticos já eram imprescritíveis na época. Então a legislação internacional acaba se sobrepõe à
Constituição? Sim, porque ela não é incompatível com a legislação
interna. Se esse parecer da AGU não for contestado, pode
haver alguma sanção internacional ao Brasil ou alguma coisa nesse sentido? Acredito que sim. Se a Justiça brasileira admitir
esse tipo de postura por parte do poder público, o Brasil vai estar sujeito
sim a sanções internacionais. |