ESTADO DEVE PEDIDO DE DESCULPA À SOCIEDADE, DIZ EX-MILITANTE

AGÊNCIA BRASIL  06/03/09

 

O reconhecimento que a Comissão de Anistia deverá dar nesta sexta-feira (6) a mulheres que militaram durante no período da ditadura militar não basta para a reparação desejada por quem sofreu perseguições políticas à época. Para a funcionária pública Iara Xavier, ex-militante da Aliança Libertadora Nacional, o governo brasileiro deve um pedido de desculpas a toda a sociedade.


"Nos sentimos muito honrados pelo pedido de desculpas por parte da Comissão de Anistia. Mas o que nós ainda esperamos, sonhamos e aguardamos é que o Estado peça desculpas ao povo brasileiro pelo Golpe de 64, pela derrubada do presidente João Goulart, e pela imposição dos anos negros da ditadura. Queremos um pedido de desculpa público como foi feito na Argentina e no Chile”, disse ela.


A funcionária pública do governo de Mato Grosso, de 57 anos, é autora de um dos 17 processos de mulheres vítimas da ditadura e parentes que serão julgados hoje pela comissão, na nona anistia cultural realizada em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.


Em 1968, a casa de Iara foi invadida pela polícia que buscava prender a mão dela, Zilda Xavier. Dois de seus irmãos, além do companheiro, Arnaldo, foram assassinados. O pai teve que se exilar e Iara se refugiou em Cuba.


A funcionária pública ressalta que quem perdeu parentes no período da ditadura ainda não obteve duas condições que ela considera essenciais para o encerramento de um ciclo: uma resposta sobre a forma como as mortes ocorreram e a punição dos responsáveis.


“É uma dor infindável. Nós não temos ainda esclarecidas as circunstâncias das mortes, se foram torturados ou não. Não se encerra o ciclo, por isso queremos a abertura dos arquivos e a penalização dos agentes.”


Para o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior, o órgão terá hoje mais uma oportunidade de reparar em parte as injustiças sofridas por mulheres que militaram nos anos da ditadura militar.


“Hoje é dia de o Brasil pedir perdão a uma série de mulheres de vanguarda no país. Elas sempre estiveram à frente do seu tempo e por isso sofreram mais com o preconceito. É mais do que um dever, é uma obrigação do Estado”, afirmou Abrão.


Segundo o presidente da comissão, as mulheres que terão requerimentos julgados hoje são responsáveis, em grande medida, pela liberdade e pela democracia vigente no Brasil nos dias atuais.