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LEI DE ANISTIA: ANTIGO OPOSITOR DO REGIME MILITAR ADOTA DISCURSO
CONCILIADOR |
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O GLOBO 06/11/08 EVANDRO
ÉBOLI E BERNARDO MELLO FRANCO Antigo
opositor do regime militar, o ex-deputado Ricardo Zarattini
engrossou nesta quarta-feira o coro do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e de
militares de que é preciso avançar na discussão que envolve a punição ou não
para militares que atuaram na ditadura e esquecer o passado. Em almoço no
Clube Naval, em Brasília, para o lançamento da Frente Parlamentar da Defesa
Nacional, Zarattini, duro opositor da ditadura e um
dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, seqüestrado em 1969, no Rio, disse que "é
preciso uma atualização de posições nesses temas". -
Não se pode congelar a História e achar que os militares de hoje são os do
passado. Os militares hoje não estão interessados em ditadura, e sim na
defesa da nação e da soberania. É preciso uma atualização de posições nesses
temas - afirmou ele, que hoje é assessor da Presidência da República. O
almoço reuniu autoridades militares e outros opositores do regime, como os
deputados José Genoino (PT-SP) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Genoino,
que atuou na Guerrilha do Araguaia e foi perseguido, preso e torturado,
evitou comentar a polêmica criada após a Advocacia-Geral da União (AGU)
emitir parecer em defesa de dois coronéis do DOI-Codi
acusados de tortura pelo Ministério Público Federal. -
Não vou comentar esse assunto - disse Genoino. Os
deputados estavam sentados na mesa ao lado do ministro da Defesa, Nelson
Jobim, e dos comandantes militares Enzo Peri (Exército) e Juniti Saito (Aeronáutica). Todos acompanharam o discurso de
Jobim no lançamento da Frente Parlamentar. O ministro procurou colocar panos quentes na discussão e ao falar da atual missão dos
militares fez menção a Genoino. -
Os militares têm certos valores que o civil vê com certo desprezo como a
relação com símbolos nacionais. Valores como de ficar na fila. E política não
se fura a fila, quem fura fila sabe o que acontece na frente. Nesta Frente
Parlamentar se encontra a esquerda e a direita. É composta por José Genoino, por alguém que foi preso pela força militar. Não
estamos falando do passado. Temos um ajuste de contas com seu futuro -
afirmou. Antes
de seu discurso, Jobim disse que o ministério e os militares não irão
interferir na resposta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá que
enviar ao Supremo Tribunal Federal (STF), na ação da Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB) que questiona se crimes praticados pela ditadura são
imprescritíveis ou não. -
O assunto é da AGU que é um órgão do estado que tem a competência para
examinar questões jurídicas. Vamos aguardar a decisão do STF. O ministério da
Defesa não tem nenhuma ingerência a respeito deste assunto e nem os
militares. Já
o chefe do Estado Maior do Exército, general Darke
Nunes de Figueiredo, afirmou que prevalece o clima de paz e de esquecimento. -
É o que disse o ministro. Tudo é passado. E vamos olhar para
a frente. Para
o comandante Enzo, a anistia resolveu esses
dilemas. -
Não compete dar parecer do parecer da AGU. A Lei da Anistia foi um acordo
político feito que propiciou a paz e a harmonia na
sociedade. Deputado
petista tem posição diferente O
deputado Pedro Eugênio (PT-PE), outro ex-preso político da Frente da Defesa
Nacional, tem outra posição. Para ele, as "pendências" do passado
precisam ser resolvidas, como os desaparecidos políticos e a abertura dos
arquivos. -
Quanto mais se esclarecerem esses fatos, mais estarão no passado. Há questões
não respondidas. Não dá para deixar para lá, jogar debaixo do tapete. Defensor
da punição dos torturadores, o ministro da Justiça, Tarso Genro, não opinou
sobre o parecer que a AGU terá de entregar ao STF na ação que questiona a
validade da Lei da Anistia para os acusados de tortura. A resposta da AGU
será incorporada ao processo como posição do governo federal. -
É uma pergunta que deve ser direcionada à Advocacia Geral da União. O
Ministério da Justiça tem relação de colaboração e não é apto a responder. OAB:
expectativa de decisão inédita no STF
O
presidente da OAB, Cezar Britto, disse que a expectativa é de que a ação
alcançará uma decisão inédita no Supremo. -
Eu não tenho dúvidas de que teremos uma decisão histórica no STF e o Brasil
vai poder ficar em paz com a sua história, pois só ficaremos em paz com a
nossa história quando o Brasil reconhecer, como tem feito alguns países, que
aqui torturador não tem vez - sustento. No
encontro do o ministro da Justiça, Tarso Genro, Britto informou ter reforçado
a posição adotada pela OAB na ação apresentada no STF. -
Pedimos a ele que o governo reforce essa teoria - de que a tortura não é crime
político, não é crime conexo, e sim crime de lesa-humanidade -, inserindo-se
assim no contexto internacional, ao qual devemos nos
juntar para combater a tortura em todo o mundo. Ex-vítima
da ditadura é relator, no STF, de ação sobre anistia O
processo que consulta o Supremo sobre o perdão aos crimes cometidos por
militares na ditadura será comandado por uma vítima dos porões. Preso e
torturado em 1972, o ministro Eros Grau é o relator da ação que pode manter
ou não a validade da Lei de Anistia para os torturadores do regime. Ele foi
designado para a função por sorteio, no último dia 21. Ex-militante
comunista, Eros tem 68 anos e é hoje o integrante mais velho do tribunal.
Nomeado pelo presidente Lula em 2004, ele também é o único no STF a ter sofrido,
em sua trajetória de vida, tortura. O
ministro não participou da luta armada, mas foi preso por pertencer ao
Partido Comunista do Brasil, o antigo Partidão, e atuar como advogado na
defesa de amigos perseguidos pelo regime. Detido no governo Médici, passou
uma semana nas dependências do DOI-Codi Na
época, a unidade era comandada pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que no mês passado foi declarado responsável por
crimes de tortura pelo juiz Gustavo Santini
Teodoro, da 23ª Vara Cível da capital paulista. Como a sentença foi apenas
declaratória, o militar continua solto. |