GOVERNO IDENTIFICA OSSADA DE MILITANTE MORTO NA GUERRILHA DO ARAGUAIA.

O GLOBO

07/07/2009

JAILTON DE CARVALHO - O GLOBO; BERNARDO MELLO FRANCO - ENVIADO ESPECIALREUTERS.

 

BRASÍLIA e MARABÁ (PA) - A Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) anunciou nesta terça-feira que foi identificada a ossada do guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, morto no Araguaia em 1972, às vésperas de completar 25 anos. As ossadas estavam em Brasília e foram recolhidas no cemitério Xambioá (TO) em 1996. A partir de agora, a secretaria vai pedir a análise de outras 10 ossadas que ainda não foram identificadas e estão em seu poder.

De acordo com a secretaria, o aprimoramento da tecnologia de exames de DNA tornou possível a identificação. A mesma ossada já tinha passado por outros cinco testes sem nenhum resultado conclusivo.

O momento do funeral é um momento sagrado "

 

O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, considerou o resultado extremamente importante.

- O momento do funeral é um momento sagrado - disse o ministro.

Vannuchi informou que conversou nesta terça-feira de manhã com a irmã do guerrilheiro morto. Ela teria dito que a mãe de 90 anos de idade tem um desejo antigo que é só morrer depois de enterrar a ossada do filho, o que poderá fazer agora. A família preferiu não falar mais nesta terça-feira sobre o fim de uma angústia de 37 anos.

Exército começa novas buscas, mas MP tenta interromper operação

A Secretaria mantinha sob sua guarda 12 ossadas recolhidas no Araguaia desde 1996. Dessas, duas já foram identificadas, a de Bergson e a de Maria Lúcia Petit da Silva, também morta em 1972. Agora restam dez ossadas para serem identificadas. O número pode aumentar ainda mais com as novas buscas que tropas do Exército iniciam nesta quarta na região, por ordem da Justiça Federal.

A expedição tem início a apenas quatro dias do prazo estabelecido pela Justiça Federal para que o governo preste informações às famílias de vítimas cujos corpos nunca foram localizados. Em Brasília, o Ministério Público Federal tenta paralisar os trabalhos até que sejam ouvidos todos os militares que participaram do combate.

Peritos e médicos legistas já foram deslocados para a região, mas as escavações só começarão em agosto. Até o fim do mês, a equipe se limitará a visitar e mapear 14 pontos escolhidos pelo Ministério da Defesa com base em relatórios das 13 expedições anteriores chefiadas por civis e militares.

Nesta terça, o comandante da operação, general Mário Lúcio Alves de Araújo, deixou claro que a intenção do Exército é apresentar resultados que encerrem a polêmica sobre as execuções sumárias e a ocultação de corpos:

- Se depender da equipe, com certeza vamos encontrar algum resto mortal. Mas são passados mais de 30 anos.

A procuradora Luciana Loureiro pediu à Justiça que a expedição seja suspensa até que o Exército aceite a participação de civis e parentes de vítimas. "Uma iniciativa exclusiva das Forças Armadas pode resultar em aumento do medo da população em revelar fatos sobre a guerrilha e eventuais locais de sepultamento".

Deputado denunciou descaso com ossadas

A identificação da ossada a partir de uma técnica mais apurada de exame de DNA ocorreu depois que, no início de 2008, o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), logo ao assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, se deparou com várias ossadas num armário.

O deputado denunciou o descaso com os restos mortais e repassou o material para a Secretaria. Há dois meses, num discurso em plenário, Mattos disse que uma ossada há anos em poder da Secretaria de Direitos Humanos seria de Bergson. O deputado fez as declarações com base na análise de um perito que contratara para examinar amostras dos ossos.

Depois das críticas do deputado, no dia 6 de junho, Vannuchi encaminhou amostras da ossada ao Laboratório Genomic. Na segunda feira, o laboratório enviou o resultado do teste em que confirma a identificação do guerrilheiro.

São cerca de 70 desaparecidos

Ocorridos entre 1972 e 1974, os combates entre as tropas da ditadura militar e a guerrilha do Araguaia deixaram cerca de 70 desaparecidos - guerrilheiros e moradores locais. A guerrilha era formada por integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

A partir de 1982, com o início do processo de redemocratização do país, familiares de ex-integrantes do movimento passaram a cobrar na Justiça a localização e recuperação dos restos mortais dos desaparecidos. Em 26 de março de 2009, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA apresentou ao tribunal uma demanda contra o Brasil.

No dia 29 de abril deste ano, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, assinou portaria criando um grupo de trabalho com a finalidade de localizar, recolher e identificar os restos mortais dos desaparecidos. Na portaria, publicada no Diário Oficial, Jobim reconhece que até então as expedições realizadas apresentaram resultados limitados.

Na semana passada, o ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou que a Comissão de Anistia vai chamar Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o major Curió, para depor sobre os combates. Em entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", oficial do Exército no regime militar revelou, no mês passado, que dos 67 militantes de esquerda mortos na Guerrilha do Araguaia, 41 foram executados já rendidos . A versão oficial do Exército é que todos os militantes foram mortos em confrontos, com armas nas mãos.

Segundo o ministro, as informações de Curió sobre a repressão ajudarão a acelerar muitos processos de anistia de pessoas que viviam na área de confronto entre guerrilheiros e as Forças Armadas.