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A TROPA DO EXTERMÍNIO |
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ISTOÉ
08/11/08 Documentos e depoimento de oficial
revelam como o Exército cercou, torturou camponeses
e aniquilou os guerrilheiros do PCdoB no Araguaia
Pela
primeira vez surge um documento do Exército brasileiro comprovando que os
militares enfrentaram os militantes do PCdoB
no Araguaia (1972/1975) com ordem para matar. Chamado de "Normas Gerais
de Ação - Plano de Captura e Destruição", o documento, de 5 de setembro de 1973, elaborado pelo Centro de Informação
do Exército (CIEx), ao qual ISTOÉ teve acesso,
relaciona os "terroristas traidores da nação" que deveriam ser
"destruídos". Em outubro de 1973, este documento estava na mochila
do então 3º sargento José Vargas Jiménez, quando desembarcou de um avião
militar P A TROPA DO EXTERMÍNIO Hércules C-130, na base militar de Marabá
(PA), e subiu em um caminhão do Exército rumo ao quilômetro 68 da Rodovia
Transamazônica para combater na Operação Marajoara - a terceira e derradeira
fase da Guerrilha do Araguaia. O verbo "destruir" redigido no
documento, segundo Vargas, hoje 1º tenente da reserva, é um eufemismo para
matar. "A ordem era exterminar", afirmou Vargas à ISTOÉ. O
documento foi expedido e entregue a Vargas pela 2ª Seção do Comando Militar
da Amazônia. Naquele momento, o combate à guerrilha contava com um efetivo de
120 guerreiros de selva, integrantes do Batalhão de Brasil EXCLUSIVO
Infantaria da Selva, 100 pára-quedistas e 30 agentes do CIEx, todos comandados pelo então major Sebastião
Curió. Além do documento, Vargas recebeu fotos plastificadas de cada um dos
guerrilheiros e um estudo do PCdoB,
de 1972, contendo as estratégias dos comunistas. "Fomos para matar. E matamos. Se alguém sobreviveu foi porque
colaborou com a gente e hoje vive com outra identidade", afirma o
militar. Segundo o PCdoB,
75 corpos tombaram no Araguaia - 58 guerrilheiros e 17 camponeses. Há
35 anos, Vargas guarda os documentos agora revelados, contrariando uma ordem
dos generais, que em 1985 mandaram queimar todo o material referente ao
período. Os papéis carregam o carimbo de secreto e indicam que o Exército tem
caminhos para elucidar sua real participação nessa história, em vez de apenas
dizer que os arquivos oficiais foram destruídos. O depoimento de Vargas prova
que as Forças Armadas nunca quiseram prender ninguém. "A ordem era
entrar na selva para matar", lembra o oficial da reserva. Em novembro de
1991, Vargas foi agraciado como herói de guerra com a Medalha do Pacifi- cador, a mais alta comenda do Exército. Para
tanto, sua atuação foi analisada durante dois anos por uma sindicância
coordenada pelo atual chefe da Comunicação Social do Comando Militar do Sul,
coronel Aurélio da Silva Bolze. Os documentos
guardados por Vargas também estão anexados nessa sindicância. A
caçada final aos comunistas começou em 1º de outubro de 1973. O comando do
Exército determinou que fossem buscados, em Clevelândia
do Norte (AP), os guerreiros da selva, uma tropa de elite das Forças Armadas.
O grupo de 19 combatentes se uniu a outro de 41 vindos de Belém (PA), também
treinados para guerrear na mata, e formaram o batalhão de caça aos rebeldes.
A tropa era formada por um capitão - Pedro de Azevedo Carioca, já morto -, 20
sargentos, um cabo, 36 soldados e três recrutas. Esse grupo se embrenhou na
floresta e durante duas semanas treinou com munição real. Nenhum militar do grupo podia cortar os
cabelos, aparar as barbas ou usar farda. "A idéia era confundir a
população que apoiava os comunistas", lembra Vargas.Completava
as ordens a escolha de um codinome. O sargento escolheu lutar como
"Chico Dólar". Operação simultânea acontecia em Manaus (AM) com 60 militares
da 12ª RM, outra tropa especial. Ao
desembarcar em Marabá, os 120 homens foram levados para a "Casa
Azul", como era conhecida a sede do centro militar. Lá, foi revelada a
estratégia de ataque. As operações começaram com o mapeamento da rede de apoio
que os guerrilheiros tinham entre os camponeses, as bases dos insurgentes e o
poderio de fogo dos inimigos. Para isso, os militares cooptaram camponeses e
formaram um Grupo de Autodefesa (GAD). "Eles eram muito bem remunerados
por nós. Tinha uma escala de pagamentos que variava entre informação e
prisão", conta Vargas. Com os dados em mãos, os militares elaboraram a
"tabela nº 01", que se chamava
"busca e apreensão". "Recebemos uma lista com o nome de quase
400 moradores que contribuíam com os comunistas", recorda Vargas. Na
madrugada de 3 de outubro, os grupos dos guerreiros
da selva e dos pára-quedistas se separaram. A tropa de Vargas embarcou rumo a
Bacaba, uma das duas bases militares na região, situada ao norte da área de
combate, as margens da Transamazônica. A outra base militar era a de Xambioá, ao sul, próximo ao atual Estado do Tocantins.
Partindo das duas bases, fizeram um cerco aos moradores e guerrilheiros (leia
mapa acima). Entrando de casa em casa, os militares colecionaram prisões de
camponeses. "Em cada cabana que entrávamos prendíamos o chefe da família
e, se este tivesse filho homem na idade de lutar, também ia preso",
recorda Vargas. "Deixamos só as mulheres e crianças para trás." Nas
bases militares, os camponeses eram submetidos a todo tipo de tortura. "Eles eram colocados descalços em pé
em cima de latas, só se apoiando com um dedo na parede, tomavam
"telefones" - tapas nos ouvidos - e choques elétricos",
conta o militar. "Prendi mais de 30", contabiliza. "Um deles eu coloquei nu em um pau-dearara,
com o corpo lambuzado de açúcar, em cima de um formigueiro. "A ORDEM ERA ATIRAR PRIMEIRO" AMAPÁ
Exército recrutou tropa especial na base de Clevelândia
do Norte O
1º tenente José Vargas Jiménez, hoje na reserva, participou da terceira fase
da operação militar que aniquilou a Guerrilha do Araguaia. A seguir, os prin cipais trechos de sua
entrevista à ISTOÉ: ISTOÉ
- Que ordens o sr. recebeu ao chegar ao
Araguaia? José
Vargas - Desembarquei na fase do
extermínio dos guerrilheiros. A ordem era atirar primeiro, perguntar depois. ISTOÉ - Como assim, extermínio? Vargas
- Recebemos ordem para matar todos.
E matamos. Se algum guerrilheiro sobreviveu à terceira fase, foi porque
colaborou com a gente e ganhou uma nova identidade. ISTOÉ
- Como foi a
ação? Vargas - Os guerrilheiros jamais esperaram um exército
descaracterizado, com ordem para exterminar. Não era uma guerra regular.
Primeiro, prendemos todos os homens da região. Criamos um Grupo de Autodefesa
(GAD), formado por moradores bem remunerados, que nos ajudavam entregando os
comunistas. Depois que matamos os comandantes da guerrilha, os outros ficaram
perambulando famintos pela selva. Numa tática de desmoralização, quando eles
eram capturados, eles eram amarrados pelo pescoço e expostos pelas ruas dos
vilarejos. ISTOÉ
- Isso foi feito com algum líder
da guerrilha? Vargas - Era para humilhar. Desfilamos com o corpo de Oswaldão, o líder máximo deles, dependurado num
helicóptero. Foi o fim do mito. ISTOÉ
- Houve ordens para decapitar os
guerrilheiros? Vargas - Foram três os decapitados. Mas foram exceções.
Não tínhamos fotos desses guerrilheiros e não dava para carregar os corpos
deles pela selva. Para identificá-los depois, cortaram-se a cabeça e as mãos. ISTOÉ - Quem reconhecia? Vargas - Entregávamos vivo ou morto para o serviço de
inteligência. Alguns ficaram na mata. ISTOÉ
- Onde estão os corpos dos
guerrilheiros? Vargas - Vários ficaram na selva e foram comidos pelos
bichos. Mas, se alguém sabe onde estão, esse alguém
é o Curió, que ficou encarregado da Operação Limpeza. ISTOÉ - O que foi a Operação Limpeza? Vargas - Era uma ação que retirou as ossadas dos
guerrilheiros da selva. Dessa operação, eu só ouvi falar. O que dizem é que
em 1975 o Curió retirou todos os corpos e os levou para a Serra das
Andorinhas. Quando o Curió falar, chega-se à verdade final. GUERREIROS DA SELVA Vargas treina seus comandados em
Belém, antes da batalha ISTOÉ - O que os militares têm a esconder? Vargas - Eu, por exemplo, capturei dois guerrilheiros e os
entreguei vivos ao comando. Eles constam na lista de mortos e desaparecidos
políticos. ISTOÉ - Quem são eles? Vargas - O Piauí e o Zezinho. ISTOÉ
- E o combate à guerrilha
urbana? Vargas - Se as forças do Estado tivessem sido radicais nas
cidades, não teríamos ministros comunistas fazendo o que querem. Os militares
que atuaram nas cidades foram muito tolerantes. ISTOÉ - O sr.
acha, então, que os grupos de esquerda nas cidades também deveriam ter sido
exterminados? Vargas - Claro. Se o pessoal que está sendo processado,
como o Ustra (coronel Brilhante Ustra),
tivesse feito o que fizemos no Araguaia, não teríamos esses aí no poder. Em
vez de os ministros do governo Lula ficarem quietos
e agradecerem por estar vivos, ficam com revanchismo. ISTOÉ - O sr.
admite a tortura? Vargas - Torturar é normal numa guerra. Para obter
informações, você tem que apelar, fazer uma tortura, senão o cara não conta. ISTOÉ
- Tortura é crime. Vargas
- Não existe lei numa guerra. Você
mata ou morre. A tortura nunca vai acabar. É assim que funciona. FOLGA Disfarçado, Vargas passeia com o filho em
Marabá, em janeiro de 1974 ISTOÉ - O sr.
torturou e matou? Vargas - Vi muito guerrilheiro sendo torturado na base de
Bacaba, mas eu só apertei um camponês que não queria falar. Coloquei ele nu em um pau-dearara,
com o corpo lambuzado de açúcar, em cima de um formigueiro. Quando as
formigas começaram a subir pelo corpo dele, o camponês contou tudo. Mas ele
ficou vivo. ISTOÉ - Como eram as torturas? Vargas
- As técnicas eram colocá-los em pé
o dia inteiro em cima de latinhas, apoiando apenas um dedo na parede. Tinha o
"telefone" - tapas nos ouvidos - e socos em pontos vitais, além de
choques elétricos. ISTOÉ
- Por que o sr. resolveu fazer essas revelações? Vargas - Tenho esses documentos guardados há muitos anos.
Depois que voltei a estudar, me politizei. Achei que a história do Brasil
deveria ser contada como de fato aconteceu. ISTOÉ
- E a ordem para destruir os
documentos? Vargas
- Veio em 1985, quando eu estava no Serviço de Inteligência do Exército. ISTOÉ - Existe um arquivo sobre a Guerrilha do
Araguaia? Vargas
- Eu acredito que o CIE deve ter
arquivo. ISTOÉ - O
sr. acha que o governo
deveria abrir esses arquivos? Vargas -
Acho. Quando as formigas começaram a subir pelo corpo, o
camponês contou tudo o que sabia sobre os comunistas", revela Vargas. Na
Base de Bacaba, segundo o militar, os guerrilheiros eram identificados
através de fotografias expostas nas paredes. Quando eram abatidos, colocava- se um "X" sobre a foto. "Os
detidos eram marcados com um quadrado", diz Vargas. A base possuía um
campo de futebol que servia para o pouso dos helicópteros. "Num terreno
próximo ao campo, eu vi sendo enterrados alguns guerrilheiros, mas na
Operação Limpeza, em 1975, esses corpos foram levados para um lugar que só
Curió sabe." Em 14 de outubro de 1973, os militares deram início
ao que Vargas chama de "fase do extermínio". No documento que o
então sargento carregava, agora revelado por ISTOÉ, está detalhado quem era
quem no esquema insurgente. "Tínhamos um álbum de fotos, nomes e área
(região) onde atuavam, além de seus destacamentos", lembra o militar.
Chamado de "Plano de Captura e Destruição", o relatório, na
primeira página, identificava os grupos de guerrilheiros que deveriam ser
abatidos, por prioridade. A chamada comissão militar da guerrilha deveria ser
dizimada em primeiro lugar. "Eles eram prioridade 1",
diz Vargas. Com a relação nas mãos, os militares se embrenharam na floresta e
a matança começou. "Numa
caminhada pela região de Caçador, encontrei três corpos de guerrilheiros
abandonados na mata. Um deles era o André Grabois,
filho de um dos líderes dos comunistas. Um outro, um mateiro, um de meus
soldados decepou-lhe o dedo, tirou a carne, e colocou o osso num colar",
afirma o tenente da reserva. Vargas também se recorda que em 24 de novembro,
depois de um tiroteio, outros corpos foram abandonados. "Como não
conseguimos identificar um deles, recebemos ordens pelo rádio para decapitar
e cortar as mãos do inimigo, para identificação. Os outros corpos foram
abandonados por lá. É claro que os animais os comeram. Nós não tínhamos
obrigação de carregar corpo de guerrilheiro e nem de enterrá- los",
diz. Segundo Vargas, quando as fotos não eram suficientes para identificar os
abatidos, suas cabeças e mãos eram cortadas para posterior reconhecimento na
Base de Marabá. VERACIDADE
Em relatório, o Exército reconhece e elogia a participação de Vargas na
Guerrilha do Araguaia No
dia de Natal de 1973, um combate exterminou oito integrantes da comissão
militar do PCdoB.
"Depois disso não houve mais combates, apenas mortes e prisões",
lembra o tenente da reserva. "Para cada um que matávamos, fazíamos um
risco no fuzil." Um mês depois, Depois
de passar quase duas décadas no Serviço de Informação do Exército, Vargas
associou sua própria experiência à coleta de relatórios secretos. Aos 59
anos, ele narrou à ISTOÉ os motivos sobre o silêncio em torno da Operação
Marajoara. Ela tinha que ser sigilosa porque era uma operação quase
clandestina das Forças Armadas. "Além
da descaracterização, não éramos obrigados a produzir nenhum documento
policial-militar sobre as mortes, nem as do nosso lado", diz.
Agora, o militar está empenhado em escrever um livro para publicar no começo
de 2009. |