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A DITADURA NÃO COMEÇOU EM 1968 |
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OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA 08/12/08 Boa sacada, a do Globo, de marcar os 40 anos do AI-5
com uma série de matérias sobre “o traje civil da ditadura
militar”. Como diz a chamada da primeira delas, do repórter Chico
Otavio, “a ditadura não estava sozinha quando iniciou os anos de chumbo
no Brasil. Seja com apoio aberto ou indiferença, a sociedade civil fez sua
parte”. Fez a sua parte, antes de mais
nada, para a consumação do golpe de 1964, de que o AI-5 foi o
paroxismo – mas não uma excrescência, ou um desvio aberrante da lógica
do regime. O Estado de S.Paulo, a propósito, deu ao caderno
especial sobre a infâmia de 13 de dezembro de 1968 o título “A
liberdade assassinada”. Na realidade, o trucidamento começou no 1º de
abril de quatro anos antes, com a derrubada do presidente João Goulart.
Presidente “constitucional”, assinala em
boa hora o texto de abertura de Carlos Marchi, no
jornal que nunca se arrependeu de sua participação no golpe a que chamaria de
“revolução”. A rememoração desta semana, portanto, requer não só
que se respeite o calendário da história, mas também, quando se destaca a
pressurosa colaboração civil para a plenitude da ditadura, como faz o Globo,
que não se omita a inestimável contribuição da mídia para o seu advento. Se a recusa do Estado a se autocensurar,
e a encobrir a censura que lhe foi imposta na sequência
do Ato 5, foi o melhor momento de sua história, o
pior momento da história da imprensa brasileira foi a sua cumplicidade ativa,
em nome da democracia, na construção do seu oposto. À época, é bem verdade, forças sociais antagônicas
entre si compartilhavam no Brasil do pouco-caso pela democracia como valor
universal. Para a direita com que a imprensa se alinhara, a
supressão das liberdades democráticas era um preço até módico a se pagar
contra os projetos progressistas – as “reformas de base”
– do governo Goulart. Para ampla parcela da esquerda, a democracia dita
burguesa era uma barreira ao progresso social. “Liberdade sem comida/ é
mentira/ não é verdade”, ensinava, antes do golpe, uma canção
[“Zé da Silva é um homem livre”, música de Geni
Marcondes e letra de Augusto Boal, gravada no disco
“O povo canta”, de 1964]. Mas os ares dos tempos idos não podem servir para
justificar o injustificável. Também houve época em que o trabalho escravo era
aceito por muitos como parte da ordem natural das
coisas. Nem por isso é menos abominável. Golpes de Estado, também. A chamada grande imprensa, com uma única exceção,
aceitou as violências do novo regime, os seus “excessos”,
conforme o abjeto eufemismo Estamos falando, repita-se, de 1964 – não de
1968. A exceção foi o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro.
Golpista, tinha publicado na primeira página os editoriais
“Chega”, “Basta”, “Fora”, clamando pela
cabeça de Goulart. Mas, já na edição de 3 de abril
de 1964, o editorial era “Terrorismo, não”, denunciando a
truculência da polícia do governador carioca e arquigolpista
Carlos Lacerda. O Correio, em que escreviam jornalistas da estatura
de Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano
Alves, Márcio Moreira Alves, Otto Maria Carpeaux e
Paulo Francis, se transfigurou em porta-voz da
oposição. Asfixiado pelo governo, morreu de inanição em junho de 1974. Do que se publicou nestes dias sobre o AI-5,
mantenha-se diante dos olhos, para que se conte a história como a história foi, o irrepreensível comentário do professor Daniel Aarão
Reis, da Universidade Federal Fluminense, no Globo de domingo (7/12): ”A dimensão militar da ditadura está bem
estudada. Mas ainda falta, e muito, estudar e refletir sobre a dimensão civil
da ditadura. Pois a ditadura brasileira, sem nenhuma dúvida, em todos os seus
momentos, foi uma ditadura militar e civil. Sem os civis, ela não teria
começado, nem durado, como durou. Em uma palavra: sem os civis ela
simplesmente não teria existido.” |