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O PRIMEIRO A
APANHAR FOI O LEITOR |
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OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA 09/03/09 Verbo
Solto A nota do diretor de Redação da Folha de S.Paulo,
Otavio Frias Filho, sobre o episódio “Ditabranda”-Comparato, publicada no domingo, 8, começa com uma rara
retratação e termina com uma injustificável reincidência. O diretor considera que a expressão “ditabranda”, com que o jornal se referiu ao regime
militar em editorial de 17/2, “foi um erro”. O blogueiro não se recorda de autocrítica do gênero na
imprensa brasileira. “O termo tem uma conotação leviana que não se
presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente
abomináveis”, escreveu Frias Filho. É questão aberta se faz parte da observação da mídia
julgar as opiniões de um periódico, expressas no espaço apropriado para isso
em jornais e revistas. Em princípio, a resposta seria não. Os juízos de valor
“da casa”, conforme o eufemismo para donos da publicação, não
deveriam entrar na alça de mira do analista da imprensa, a não ser em duas hipóteses: Quando se infilitram em
material jornalístico em sentido estrito – numa palavra, o noticiário
– para confundir, portanto lesar, o leitor. Ou quando se apoiam em distorções comprováveis da realidade. Nesse
caso a crítica trataria de demonstrar que se atropelou o princípio de que
“as opiniões são livres, mas os fatos são sagrados”. Dessa perspectiva, o observador da
imprensa há de ser neutro diante da “ditabranda”,
da retratação (salvo para registrar o seu caráter incomum, seja lá o que a
tenha motivado) e ainda da consideração adicional do diretor da Folha de que
“a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos
repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena – ou que a
ditadura cubana, de esquerda”. Mas essa neutralidade não vale para a reação da
Folha quando foi duramente criticada pelo jurista
Fabio Konder Comparato em
carta publicada três dias depois do editorial. Não vale, porque aqui se está
no terreno do relacionamento da imprensa com o público, uma dimensão
inseparável do próprio exercício do jornalismo e, como tal, objeto legítimo
de exame crítico. E é nesse terreno que a Folha cometeu a
injustificável reincidência mencionada na abertura deste texto. A
“incidência”, como se sabe, foi a
resposta que o jornal deu ao leitor. Aliás, aos leitores, porque a Folha
visou também a autora de outra carta publicada na
mesma coluna, a cientista política Maria Victoria Benevides.
A associação, em si, foi tecnicamente um erro porque o tom das duas críticas
é marcadamente diferente. Tanto que a matéria que cerca a
nota de retratação da Folha, sobre um ato de desagravo aos professores, no
último sábado, cita apenas, a título de remissão, um trecho da carta de Comparato (“deveriam ser condenados a ficar de
joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro” o autor do
editorial e o diretor de Redação que o aprovou). O jornal não reproduziu nenhuma passagem do texto de
Maria Victoria certamente por não haver nele nada comparável em matéria de
agressividade – ou de “imprecação ríspida”, segundo a nota
de Frias Filho. A essa imprecação, argumenta ele, o jornal reagiu
“com rispidez”. Esta consistiu em chamar de “cínica e
mentirosa” a “indignação” (com aspas depreciativas, no
original) dos missivistas porque eles “até hoje não expressaram repúdio
a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba”. Vamos nos entender. Julgue-se como se queiram as
palavras do professor Comparato – e ao blogueiro elas soam tão infelizes, por seu
descomedimento, quanto os incontáveis comentários que degradam o debate
público na blogosfera – a Folha não deveria
ter feito o que fez: transgredir a norma elementar do ofício segundo a qual
jornais e revistas não batem boca com os seus leitores. Ainda mais quando eles não são protagonistas de
matérias ou de editoriais polêmicos. Suponha-se, para raciocinar, que a Folha tivesse
dado um texto que deixasse mal, por qualquer motivo, o jurista Comparato, e que ele escrevesse uma carta contestando com
contundência a reportagem (ou o editorial) que o expusera. A Folha teria a
obrigação de publicar a réplica – e o direito de acusar o seu autor,
por isso ou aquilo, de ter uma atitude cínica e mentirosa. Seria, como se diz, jogo jogado. Mas, no caso da “ditabranda”,
a Folha poderia legitimamente ou não publicar a carta – se quisesse,
fazendo saber ao autor que a considerava incompatível com os padrões que o
jornal adota para a divulgação das mensagens dos seus leitores; ou
publicá-la, a seco, ou, ainda, com um breve comentário do tipo “a Folha
mantém a sua posição” – ainda que dela viesse a se retratar, mais
adiante. Comparato não insultou a Folha. Pediu para ela,
metaforicamente, uma punição que evoca procedimentos de colégio de padres. Na
boca de um defensor da ditadura de 1964, por motivos opostos, mereceria do
professor um protesto fervoroso, em nome da liberdade de expressão. Ainda
assim, o jurista considerou o editorial “vergonhoso”, mas não o
atribuiu ao cinismo ou à mendacidade de seus autores. Já o troco foi pior do que uma reação ríspida a uma
imprecação ríspida. Constrangeu e desconcertou todos quantos não tinham por
que esperar isso do jornal. Não será impossível encontrar no Painel do Leitor
cartas tão duras como aquela, contra o que a Folha deu ou deixou de dar, sem
que a canelada recebida fosse retribuída por outra – ainda mais
rombuda. E será impossível, ou extremamente difícil,
encontrar na seção de cartas de qualquer jornal com o qual a Folha não se
envergonharia de ser comparada uma resposta assim violenta. O que conduz, enfim, à injustificável reincidência,
no último parágrafo da nota de Frias Filho: “Para se arvorar em tutores do comportamento
democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar
que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de
esquerda com as quais simpatizam.” A Folha não precisava disso. Muito menos o seu público. Ficou do destampatório, apequenando a retratação da
“ditabranda”, a impressão de que o
jornal serviu de ringue para uma quizila pessoal, em que o primeiro a apanhar
foi o leitor. P.S. Colírio Na mesma edição, mas a dezenas de páginas de distância, o septuagenário jornalista Aldo Pereira, enviado especial da Folha ao Tibete, clareia a vista do leitor com a primorosa abertura de sua matéria “Viagem a Xangri-lá”: |