GOVERNO CONCEDE, FINALMENTE, ANISTIA A CHICO MENDES

AGÊNCIA AMAZÔNIA DE NOTÍCIAS 10/12/08

 

Pedido foi protocolado há três anos. Viúva receberá indenização de R$ 337, 8 mil e pensão mensal vitalícia de R$ 3 mil.

 

CHICO ARAUJO

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A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça aprovou hoje, por unanimidade, a anistia política do líder sindical e ecologista Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, morto no dia 22 de dezembro de 1988, em Xapuri (AC), com um tiro de espingarda no quintal da sua casa. A medida vai garantir uma indenização de R$ 337,8 mil e mais uma pensão mensal vitalícia de R$ 3 mil à viúva de Chico, Ilzamar Mendes, e aos dois filhos dele — Sandino e Elenira Bezerra Mendes.

 

A pensão mensal foi proposta pela advogada Sueli Belatto, vice-presidente da Comissão. Em 1990, Belatto atuou como advogada de acusação dos matadores de Chico Mendes ao lado do jurista Márcio Thomaz Bastos.

 

O benefício é concedido três anos após o advogado de Ilzamar, o juiz federal aposentado Pedro Paulo Castelo Branco Coelho ingressar com o pedido de indenização no Ministério da Justiça. Na ação, Castelo Branco e seu filho, o também advogado Paulo Rogério dos Santos Coelho, lembram que a reparação econômica é necessária porque, segundo eles, Chico Mendes foi injustamente considerado “um perigo à segurança nacional” pelo regime militar. Outro motivo alegado pelo advogado é de que, após a morte do sindicalista, a família dele não tinha condições financeiras para sobreviver.


Castelo Branco ingressou com o pedido no dia 12 de abril de 2005. À época, o ministro da Justiça era o advogado Márcio Thomaz Bastos, o mesmo que atuou no júri que condenou a 19 anos de prisão o fazendeiro Darli Alves da Silva, e seu filho, Oloci Alves, como mandante e autor do assassinato. Atualmente, Darli — que fugiu duas vezes da prisão no Acre — está em liberdade condicional e vive em Xapuri, onde cuida de suas fazendas.


A anistia a Chico Mendes é a segunda vitória deste ano do ex-juiz Pedro Paulo Castelo Branco Coelho na Comissão de Anistia. Em julho, a comissão deferiu outro pedido seu em favor do ex-deputado federal João Maia Silva Filho. Ele foi alvo de uma ação penal no Superior Tribunal Militar (STM) no dia 9 de fevereiro de 1981. Delegado da Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) no Acre, Maia foi acusado de incitar trabalhadores rurais de Xapuri e Brasiléia vingar a morte do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Brasiléia, Wilson Pinheiro.


“Atentado à paz social”

 

Em seu pedido de anistia, o ex-juiz Pedro Paulo lembra, em detalhes, que Chico Mendes foi alvo de investigação durante os anos de chumbo do regime militar e enquadrado com base no artigo 36, incisos II, IV e seu parágrafo único, da Lei de Segurança Nacional (Lei 6620/78). A ação contra Mendes foi impetrada na 12ª Corte da Justiça Militar, em Manaus (AM), no dia 12 de fevereiro de 1981, sete antes dele ser morto. Nessa época, Mendes era vereador MDB e representante do Centro de Direitos Humanos, em Xapuri (AC).

 

Vigiado pelos militares, Chico Mendes foi acusado, na Procuradoria Militar, pela prática de “atentado contra a paz social, a prosperidade nacional e a harmonia entre as classes sociais”. No final da década de 1970 e início dos anos 1980, a região de Xapuri e Brasiléia onde Chico Mendes militava vivia em ebulição devido à reação dos seringueiros e agricultores aos desmates patrocinados pelos fazendeiros, os chamados “paulistas”, que chegaram ao Acre atraídos pela terra barata e os incentivos do governo federal. Foi nesse período que Chico Mendes, Wilson Pinheiro e outras lideranças rurais iniciaram os “empates de derrubadas”, ou seja a formação de escudos humanos ao redor das árvores, para impedir a destruição da floresta.


A idéia dos “empates” ganhou força, mas também aumentou a ira entre os fazendeiros. No dia 21 de julho de 1980 a situação se agrava com o assassinato do presidente do STR de Brasiléia, Wilson Pinheiro. Seis dias depois, no dia 27 de julho, acontece em Rio Branco (AC) a fundação do Partido dos Trabalhadores. O ato contou com a presença de líderes nacionais, entre eles Jacó Bittar e o hoje presidente Luís Inácio Lula da Silva.


Encerrado o ato em Rio Branco, vários líderes — a caravana contava com Bittar, Lula e o próprio Chico Mendes — foram até Brasília para uma manifestação contra a morte de Pinheiro. Durante o ato público, vários líderes clamaram por justiça em discursos inflamados. As autoridades do regime militar, conforme a denúncia contra Chico Mendes, entenderam que os sindicalistas “clamavam por vingança e responsabilizavam as autoridades pela situação em que vivia, no Estado, a classe trabalhadora”.

 

Morte de Nilo Sérgio 

 

Após o ato público, quando vários trabalhadores já retornavam para suas casas, ocorreu o assassinato do fazendeiro Nilo Sérgio de Oliveira, o Nilão, para muitos o responsável pela morte de Wilson Pinheiro. Na denúncia contra Chico Mendes, os militares alegam que a morte de Nilão ocorreu devido ao clima de tensão na região e porque os denunciados, entre eles Francisco Alves Mendes Filho incitou a “desobediência coletiva e a violência entre as classes, o que levou ao assassinato de Nilo Sérgio de Oliveira”.

 

No dia 9 de setembro de 1988, três meses antes de ser morto, Chico Mendes referiu-se ao caso durante entrevista no III Congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT). De acordo com ele, “a morte do fazendeiro (Nilão) após o assassinato de Wilson Pinheiro coincidiu com a época em que o Lula (Luís Inácio as Silva) e eu estávamos organizando o PR na região”. Disse ele que, após o fim do comício, à meia-noite, todos foram embora de Brasiléia. “No outro dia, ao amanhecer, fuzilaram o fazendeiro e atribuíram isso à influência do nosso discurso. Só que estavam a oitenta e cinco quilômetros de onde aconteceu o ato público e não poderiam ter nenhuma influência do Lula nem minha”.

 

Em seu pedido de anistia, o ex-juiz Pedro Paulo Castelo Branco Coelho ressalta que, em momento algum, Chico Mendes queria justiça com as próprias mãos. “Os ideais dele, Chico Mendes, resumem-se basicamente em duas idéias que permeavam sue trabalho: a justiça social e a preservação da floresta, como meio de subsistência do povo que dela depende”. E Pedro Paulo vai mais além, quando diz:

 

“Não há que se falar aqui em incitação como constava na denúncia; que a ele próprio Chico Mendes causou tantos transtornos. O que hoje comprovamos é que o que existia no timbre de sua voz era o anseio por Justiça, o medo de que a morte de um amigo de luta ficasse ao largo da Justiça. No discurso de Chico Mendes, sempre calmo, pois assim era seu modo de falar; não sentia que estava incitando, mas apelando por Justiça”.

 

Depois de anos de sofrimento, o reconhecimento

 

Depois de vários anos de espera e muito sofrimento, a família do líder sindical Chico Mendes — cujo nome serviu para pavimentar a carreira de vários políticos do Acre — é, finalmente, reconhecida pelo estado brasileiro. E o Acre, terra dele, foi o lugar onde a Comissão de Anistia promoveu sua 200ª sessão para aprovar uma indenização de R$ 337,8 mil.

 

A concessão do benefício aconteceu no Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco (AC). Durante a solenidade, assistida pela viúva dele, Ilzamar, e pelos filhos, o ministro da Justiça repetiu o discurso da semana passada, no Senado, quando da sessão pela passagem dos 20 anos da morte de Chico Mendes. Disse que, com a anistia, estava pedindo desculpas a Chico Mendes. E acrescentou:

 

“Mendes era um homem à frente do seu tempo. Sua anistia é a afirmação do processo democrático no Brasil”. Para o ministro, Chico “foi um sujeito civilizatório que combateu a desigualdade, a violência e a impunidade”. Outro que destacou a luta de Chico Mendes foi o governador do Acre, Binho Marques (PT). “Hoje não é um dia qualquer. A anistia de Chico Mendes faz do Brasil um país mais importante, atento à questão dos direitos humanos”, afirmou o governador.

 

A decisão da Comissão acontece na data em que é comemorada os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e véspera dos 40 anos de edição do Ato Institucional numero 5, o AI-5, símbolo maior da censura no Brasil.

 

Para a viúva de Mendes, o momento é histórico para o Acre e o Brasil. “Meu marido nunca incitou o crime, pelo contrário, ele foi um defensor da vida”, disse Ilzamar, emocionada.

 

Além do pedido de Mendes, outros processos também foram julgados em Rio Branco pela Comissão de Anistia:

 

João Moreira de Alencar: Militante do PTB. Trabalhador autônomo. Ajudou a organizar o Grupo dos Onze em Rio Branco. Preso e perseguido pelo governo militar.


Edílson Rodrigues Martins: Jornalista. Membro do Movimento de Libertação Nacional (MOLINA) e do PCBR. Preso e demitido por perseguição política.


João Ricardo Bessa Freire: Professor. Dirigente da Associação dos Professores do Amazonas. Ajudou na fundação de grêmios estudantis e foi de encontro aos programas educacionais do Governo militar. Contratado como Professor-coordenador do Projeto Rondon em Manaus, demitido por lutar contra o regime ditatorial.


Lourival Messias de Oliveira: Participou do Grupo dos Onze em Rio Branco, preso e condenado.


Epaminondas Jacome Rodrigues:
Dirigente do Diretório Central dos Estudantes Secundaristas de Brasília. Metalúrgico no ABC. Preso, torturado. Exilado na Argentina, onde é preso e barbaramente torturado. Refugia-se em Portugal, onde passa a ser representante do ACNUR. Retorna ao Brasil em 1979. Recebeu, em 1995, o prêmio Chico Mendes.