O PASSADO REPETIDO

O POVO 11/11/08

 

MÁRIO ALBUQUERQUE

 

Pela segunda vez, nesse ano, o Comando Militar do Leste é envolvido publicamente em denúncia de crimes de tortura contra cidadãos civis, sendo o primeiro o caso dos três jovens do morro da Providência (que teriam sido entregues para serem mortos por traficantes) e agora o jovem J.S.G, de 16 anos, que acusa a Polícia do Exército de ter jogado substância ácida e aplicado choques elétricos sobre seu corpo. Nos dois casos, a reação inicial do Exército foi a de que "desconhece o assunto".  E só diante da repercussão do fato, de que "vai instaurar um rigoroso inquérito".

 

Estamos diante de uma situação que vai se configurando uma repetição de um acontecimento que marcou o governo Geisel durante a ditadura, envolvendo os assassinatos nas dependências do II Exército, sediado em São Paulo, do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho. O fato é conhecido: diante do aberto desafio que essas mortes representavam à sua política de abertura, Geisel demitiu o seu comandante, general Ednardo Dávila Melo. O ato firme de Geisel foi o primeiro de uma série que teve de tomar para salvar seu projeto de distensão, culminando com a demissão de seu ministro do Exército, Silvio Frota, à frente de uma trama golpista.

 

Estamos, agora, diante de uma situação que vai tomando a mesma feição, ou seja, a contínua repetição de atos criminosos de tortura numa mesma área militar, o II Exército, e sob um mesmo comando, o do general-de-Exército Luiz Cesário Silveira Filho, o mesmo que recentemente esteve presente num ato no Clube Militar em solidariedade ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, assim declarado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

 

Assim como o projeto de abertura de Geisel no passado, o destino do nosso jovem Estado Democrático de Direito está diante do desafio de setores recalcitrantes da ditadura que teimam na prática de crimes que violam nossa Constituição e envergonham nosso país frente ao mundo.

 

Enganam-se, perigosamente, de boa ou má fé, os que apregoam a impunidade aos torturadores da ditadura. Cada vez mais fica evidente a relação dessa impunidade com o presente de exponencial aumento da violência e da tortura. Assim como na vida pessoal, também na história das nações o recalcado retorna. E piorado.