RESTAURAÇÃO DA DIGNIDADE DO BRASIL

ÚLTIMA INSTÂNCIA 12/12/08

 

JOSUÉ MARANHÃO

 

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.”


O artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos sintetiza a firme intenção dos povos de se redimir das barbáries praticadas durante a Segunda Guerra Mundial.


No Brasil, vinte anos e três dias depois da aprovação da Declaração, a ditadura militar editou o Ato Institucional No. 5.


No dia 10, quarta feira passada, comemorou-se o aniversário de sessenta anos do Estatuto outorgado com o propósito de assegurar à humanidade o respeito aos seus direitos básicos, notadamente a vida e a integridade física das pessoas.


Amanhã será lembrado que há quarenta anos o Brasil passou a vivenciar o período em que foi institucionalizado exatamente o oposto, ou seja, o desrespeito à vida e à integridade física das pessoas.


Em nome de um Estado autoritário e bárbaro, agentes públicos passaram a dispor de poderes absolutos para matar, torturar e fazer desaparecer brasileiros,independentemente de qualquer julgamento.


Passadas quatro décadas, vivendo-se sob um regime que se proclama democrático, ainda são muitos os brasileiros que sumiram, foram assassinados nas masmorras dos quartéis e suas famílias sequer têm o direito de sepultar o que restou dos seus corpos.


Enquanto se discute se a tortura é ou não crime hediondo e imprescritível,no seio do governo alguns ministros defendem a punição dos torturadores e dos assassinos que agiram em nome do Estado, enquanto outros pretendem acobertar os criminosos, sob o pálio de um arremedo de lei de anistia. Aliás, lei de anistia imposta à nação, exatamente pelos ditadores e seus asseclas que acobertavam as torturas e os assassinatos. Anistia compulsoriamente adotada, à moda que interessava aos senhores do poder e que foi homologada por um Congresso acovardado, sob ameaças de cassações e prisões. À nação sequer foi permitido discutir o seu texto.


A alegação de que os insurgentes, aqueles que se rebelaram contra o regime ditatorial, também foram e estão protegidos pela malsinada lei de anistia, é falácia. Autores que sejam de crimes hediondos e imprescritíveis, obviamente não estariam amparados pelo arremedo de perdão legal, impondo-se que igualmente recebam a devida punição. Culpados, devem ser punidos, inclusive aqueles que desfrutam, no momento, das benesses do poder.


Enquanto a sociedade espera uma definição, o Estado, através dos poderes institucionais, acovarda-se e se equilibra no arame, incapaz de adotar uma definição oficial.


A pusilanimidade não permite que sequer sejam revelados os segredos dos arquivos, de modo a se permitir à nação saber, pelo menos, o que na realidade ocorreu e, ao mesmo tempo, respeitar o direito das famílias de localizar e dar a sepultura devida aos restos mortais daqueles que foram assassinados durante os chamados anos de chumbo.


Temem, certamente, aqueles que deveriam dirimir as dúvidas e fazer presente o império da lei, inclusive os ocupantes dos mais elevados postos na República, que, como ocorreu em 1964 e 1968, ocorra um novo golpe militar e uma outra ditadura venha a ser imposta.


Inexiste o risco, evidentemente. Na consciência dos militares pesa o remorso do acobertamento de criminosos mantidos impunes, bem como a sensação indelével do evidente fracasso da paródia daquilo que foi propagado como justificativa para o autoritarismo e que seria limpar o Estado e conferir à nação um Brasil novo.


À falta de um inimigo que lhes permitisse demonstrar a coragem e testar a bravura, voltaram-se os militares contra o povo. O pretexto foi a pretensa eliminação do risco de ser implantado um fantasioso e fictício regime socialista, simultaneamente com a realização de um trabalho de eliminação da corrupção e imposição de um Estado limpo e imune à bandalheira na área político-administrativa. Falharam duplamente.


Do lado ideológico, o que restou foram os relatos das arbitrariedades, torturas e assassinatos, praticados em nome do Estado.


A limpeza prometida sequer saiu do imaginário. Uma geração foi castrada.Em decorrência, na área política, o que restou foram os corruptos e corruptores antigos que sobreviveram, ou seus herdeiros e filhotes, que continuam mercadejando, a troco de migalhas, o apoio e a subserviência.


Sequer foi tentada a adoção de princípios de moralidade pública, com a mudança da cultura da desonestidade e da indecência. O que se vê, no momento, até no Poder Judiciário, são os casos estampados na mídia de juízes, do mais vário escalão, traficando e vendendo sentenças.


A realidade é que à nação resta lamentar o desrespeito continuado à Declaração Universal dos Direitos Humanos e, ao mesmo tempo, manter a vigilância, de modo a evitar que venha a se repetir a adoção do terror oficializado através de Atos Institucionais ou assemelhados.


Alçado ao poder sob uma aureola de esquerdismo, houvesse coragem do atual governo, deveria se definir quanto à abertura dos arquivos da ditadura, bem como quanto à polêmica a respeito da punição àqueles que - sejam eles de que lado, agentes do Estado ou os ditos insurgentes - no período negro, cometeram crimes que ante as regras internacionais são tipificados como hediondos e imprescritíveis.


Seria a forma de restaurar a dignidade do Brasil, ante os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual foi signatário.