"DECISÃO ME DEIXA CONSTRANGIDA", DIZ JULIANA BRIZOLA

ZERO HORA 14/10/08

 

Neta do ex-governador Leonel Brizola acredita que o pedetista não acharia justa a decisão

 

Ainda que tenha considerado um reconhecimento histórico a decisão do Ministério da Justiça de conceder ao seu avô a declaração de anistiado político, a vereadora eleita da Capital Juliana Brizola, 33 anos, disse estar constrangida com a origem do pedido. A neta do ex-governador Leonel Brizola acredita que o pedetista, morto em 2004, não acharia justa essa reivindicação. A seguir, trechos da conversa:

 

Zero Hora — Como a senhora vê o fato de o pedido de anistia ter sido encaminhado pela ex-companheira de seu avô?

Juliana Brizola — Isso, para mim, é bem complicado. No fundo, acho que não seria ela a melhor pessoa para entrar com o pedido. Na época do exílio, eles nem se conheciam. E, mais do que isso, para conseguir uma pensão ela foi declarada esposa depois que ele morreu. Foram os filhos que resolveram reconhecer que ela tinha uma união conjugal para ela receber pensão. Acredito que foi esse fato que deu legitimidade para ela fazer esse pedido na Comissão de Anistia.

 

ZH — O pedido tem gerado constrangimento para a família?

Juliana — Para mim, gera. Meu avô nunca trouxe ela (Marília) para ao Rio Grande do Sul. Ela só foi a São Borja depois que Brizola morreu. Até sei que ela foi namorada dele lá no Rio, mas, para mim, nunca foi muito oficial. Não sei a posição dos outros herdeiros, não falei com eles sobre esse assunto.

 

ZH — Seria um reconhecimento histórico com efeitos colaterais?

Juliana — Sim. A decisão me deixa constrangida.

 

ZH — Por quê?

Juliana — É pela minha avó (Neusa Goulart Brizola, morta em 1993), que era aqui do Rio Grande do Sul. E a cerimônia (de anistia) será aqui.

 

ZH — A senhora considera o pedido de anistiado moralmente questionável?

Juliana — É. Se Brizola quisesse tê-la reconhecido como esposa, teria feito em vida, porque teve tempo hábil. Depois, há um outro fator: mesmo tendo conhecimento da existência da Comissão da Anistia, ele nunca entrou com esse pedido. Não sei se ele acharia justa essa reivindicação. Quem poderia receber o reconhecimento oficial seriam os filhos, que sofreram no exílio, que passaram por todo aquele horror e têm seqüelas até hoje. Na época, não sei onde ela (Marília) estava.