DIÁRIO
GAUCHE 14/10/08
Advogada é contra a
anistia de seu avô
Cristóvão Feil
Leonel
Brizola foi um eterno cético com relação à herança de talento, genético ou
adquirido. Citava sempre o exemplo de Getúlio Vargas, que para ele nunca
tivera um descendente à altura do seu talento político e grandeza como
estadista.
Pois,
o mesmo se pode dizer do próprio ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio
de Janeiro: igualmente não teve descendentes da
qualidade de seu descortino político-administrativo.
Haja vista a sua neta, Juliana Brizola, recém eleita vereadora
de Porto Alegre, pela legenda do PDT. Hoje, a jovem balzaquiana de 33 anos
concedeu uma entrevista ao jornal Zero Hora a propósito do
reconhecimento oficial de anistia ao seu avô, Leonel Brizola, e mete os pés
pelas mãos.
Como bacharel em Direito, a neta deveria saber que a anistia concedido pelo poder público é antes de tudo um
ato objetivo de natureza política. Portanto, ninguém pode
ficar constrangido – como a neta afirma sentir-se – porque um
parente querido seu, e já falecido, foi objeto de reconhecimento civil
(restituição moral integral da cidadania) e reparação política por parte do
Estado, o mesmo Estado que uma vez o perseguiu, o baniu, o condenou e o
imputou do “grave” delito de ter uma opinião diferente dos
ditadores de plantão.
A neta embaralhou questões familiares de delicada subjetividade
com a pura objetividade política do tema de anistia. É verdade que só o fez provocada, ou melhor, envenenada pelo jornal da RBS, que explorou de forma reprovável
a fragilidade emocional da neta, bem como a sua evidente ignorância em
matéria de direito e de política. Mas mostrou-se também ressentida pelo fato
de que o pedido formal de reparação tenha partido de alguém que –
talvez – ela julgue indigna de fazê-lo, uma senhora que foi a
companheira de Brizola, depois de sua viuvez. Como se isso fosse um ultraje à
memória de sua avó, a sempre digna Neuza Goulart.
Já se vê que a neta – como diria Brizola – "não
tem sequer um gene político do avô".
Leonel, na idade de Juliana, já era governador do Rio Grande do
Sul. A vereadora, com o “talento” que exibe, parece ter chegado
ao Everest de uma brevíssima carreira.
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