MJ ANUNCIA JULGAMENTO
HISTÓRICO DA GUERRILHA DO ARAGUAIA
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MJ 17/06/09 O episódio de repressão à Guerrilha do Araguaia,
que deixou cerca de 70 mortos e desaparecidos, terá uma reparação histórica
nesta quinta-feira (18). A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça vai a
São Domingos do Araguaia, no sul do Pará, para anunciar, em ato público, o
resultado do julgamento de 91 processos de anistia política. Todos de
camponeses da região, que tiveram suas vidas transformadas na década de 1970
por um episódio ainda obscuro da história do país. O ministro da Justiça, Tarso Genro, e a
governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, abrirão a
24ª Caravana da Anistia às 14 horas, na praça da cidade. Será realizada uma
sessão de memória, em homenagem aos moradores da região perseguidos pela
ditadura – muitos foram torturados, seqüestrados e até assassinados
para dar informações que, muitas vezes, não tinham. Em seguida, o resultado
dos julgamentos será anunciado pelo presidente da Comissão, Paulo Abrão. A Comissão de Anistia aproveitará a Caravana
para, na sexta-feira (19), realizar sessões complementares de oitivas na
chácara da paróquia do município, a partir das 9 horas. Quatro turmas da
Comissão tomarão cerca de 90 depoimentos de camponeses, como parte da instrução
dos demais processos que aguardam decisão. No total, foram protocolados 304 pedidos de
anistia política referentes à Guerrilha do Araguaia, incluindo requerimentos
de militantes (26) e camponeses (278). Após esta Caravana, restarão 191
processos deste que é um dos casos mais complexos da Comissão de Anistia, em
razão da dificuldade em obter provas documentais. Dois anos de trabalho Para elucidar o caso, o órgão do Ministério da
Justiça criou um grupo de trabalho, que atua no caso há mais de dois anos. Após
duas visitas da Comissão à região do Araguaia, em 2007 e 2008, foram colhidos
287 depoimentos de moradores. Esses relatos foram cruzados com documentos da
Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e do Ministério Público,
além de registros bibliográficos existentes sobre a guerrilha. O resultado
será divulgado no dia 18, na presença dos camponeses envolvidos numa guerra
da qual não queriam fazer parte. Será o primeiro ato público de reparação
coletiva da Comissão. “Mais de 30 anos depois, o Brasil pedirá
desculpas oficiais aos moradores e camponeses vitimados por esta que é
considerada a maior operação militar do país desde a participação na 2ª
Guerra Mundial”, afirma Paulo Abrão. A Guerrilha Os registros históricos apontam que, a partir de
1966, membros do PCdoB se
instalaram na região situada à margem esquerda do Rio Araguaia, no interior
do Pará, e instauraram a Guerrilha do Araguaia. Os “paulistas”,
como eram chamados pelos moradores locais, foram descobertos pelo Exército e
se transformaram em alvo de operações militares entre 1972 e 1975. O objetivo dos militantes era montar uma
guerrilha rural, exército popular de libertação inspirado no processo
revolucionário da China, ocorrido entre 1927 e 1949. No entanto, antes mesmo
de iniciar a luta armada contra a ditadura militar, o movimento foi
exterminado. Corte Interamericana Em função da Guerrilha do Araguaia, o Brasil é
réu na Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão judicial autônomo da
Organização dos Estados Americanos (OEA) com sede na Costa Rica. É o primeiro
caso relacionado à ditadura que se transforma em processo contra o país na
Corte. O Estado brasileiro está sendo processado pela
detenção arbitrária, tortura e desaparecimento de cerca de 70 pessoas, entre
militantes do PCdoB e
camponeses, pela não punição dos responsáveis e pela “falta de acesso à
justiça, à verdade e à informação”. Neste último ponto, o julgamento da
Comissão de Anistia é um passo fundamental para a restauração da verdade e
reparação dos perseguidos políticos. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sediada em
Washington (EUA), entrou com o processo na Corte em 26 de março deste ano. No
documento, o órgão pede que a Corte ordene ao Brasil medidas como a
determinação da responsabilidade penal pelos desaparecimentos forçados das
vítimas da guerrilha e a reparação aos familiares dos mortos e desaparecidos. |