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DESCULPAS PARA JANGO |
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REVISTA ÉPOCA 17/11/08 PAULO
MOREIRA LEITE A anistia de João Goulart me encheu de vergonha.
Anistia é perdão, esquecimento. Vem de amnésia. Muita gente até merece ser perdoada no Brasil. Jango
não cometeu falta alguma, erro nenhum. Não pode ser acusado de desrespeitar
nenhuma lei. Não sou admirador do ex-presidente nem participo do
culto nostálgico de uma personalidade que nunca me pareceu especialmente
competente. Mas se alguém merece ser chamado de vítima do regime militar essa
pessoa é Jango. Anistia no seu caso é novilíngua –
aquele idioma típico dos ditadores, onde verdade é mentira, como explicou
George Orwell em “ Jango era vice presidente
da República, posto que conquistou pelo voto direto. Num tempo em que se
votava também para vice, foi eleito para formar o governo em companhia de
Jânio Quadros, embora fizesse parte de outra composição e tivesse outro
pensamento. Assumiu o Planalto em 1961, com a renúncia de Jânio,
depois de enfrentar uma conspiração militar que queria impedir sua posse.
Concordou em governar o país sob o regime parlamentarista e, mais tarde,
convocou um plebiscito para retornar ao presidencialismo. Venceu por uma
margem tão grande que eu, que tinha menos de 10 anos na época, sabia que o
parlamentarismo seria enterrado antes da apuração do primeiro voto. Jango foi derrubado no golpe de abril de 64 numa
quartelada que durou 20 anos, produziu tudo aquilo
que nós sabemos e não teve muita sociologia. A desculpa de militares e
empresários que articularam o golpe é que ele pretendia montar uma república
sindicalista no país. Também diziam que iriam acabar com a corrupção e a
subversão. Nós sabemos o que aconteceu. A sessão da Câmara que declarou a presidência vaga,
no dia do golpe, é um dos momentos mais deprimentes do parlamento brasileiro.
A verdade é que o governo Jango tinha apoio popular e as reformas de base que
prometia eram aprovadas até em pesquisa do Ibope. Em 1965 iriam ocorrer eleições presidenciais para sua
sucessão e o retorno de seu aliado Juscelino Kubitschek para o Planalto era
uma barbada – o que deixava os adversários em desespero, pois era
evidente que jamais entrariam em Palácio pelo voto. Só por essa razão Jango foi derrubado, cassado e
perseguido. Não tinha estatura de herói nem de político capaz de
deixar herança intelectual para as gerações futuras. Não ameaçava ninguém. No golpe, confiou numa resistência que não existia.
Traído por chefes militares que lhe deviam lealdade, foi embora do daís quando a derrota se tornou inevitável, o que se
descobriu em poucas horas. Testemunhas que respeito me falam
da incompetência de Jango e dizem que dava voz a assessores incapazes e
barulhentos. Fui formado naquela escola política que nasceu na
crítica ao nacionalismo de Vargas, do qual Jango era herdeiro. Muitas de suas
medidas eram demagógicas e boa parte de suas atitudes eram provocação. Ele era considerado o representante maior do
populismo brasileiro - formulação parcial e genérica ao mesmo tempo, pois nos
sabemos que nessa categoria se encontra o petro-ditador
Hugo Chávez e também a folclórica Mamãe Ganso Sarah
Palin, não é mesmo? A rigor, isso não importa. Jango era um representante da vontade popular e ela
foi desrespeitada. Isso é um erro e um crime. Não discuto se a família tem direito a pensão ou
não. Acho que deve ter todos os direitos reservados às viuvas
e herdeiros de um presidente da República. Um país que é obrigado a anistiar um ex-presidente
da República, que deixou o cargo em função de um golpe militar tem uma longa
e triste história para ajustar com seu dicionário político, concorda? |