MJ ANISTIA 44 CAMPONESES DO ARAGUAIA PERSEGUIDOS NA DITADURA

MJ

18/06/09

 

Em ato público na praça de São Domingos do Araguaia (PA), nesta quinta-feira (18), a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu anistia política a 44 camponeses da região, que foram perseguidos pela repressão militar à Guerrilha do Araguaia. Do total de 84 processos julgados, 40 foram indeferidos – por falta de documentos comprobatórios ou por não se enquadrar nos casos previstos na Lei de Anistia (10.559/2002).

O primeiro ato de reparação coletiva da Comissão foi realizado durante a 24ª Caravana da Anistia, aberta nesta tarde pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, e pela governadora do Pará, Ana Júlia Carepa. Cerca de 600 moradores da região assistiram à cerimônia, marcada pela emoção ao resgatar a memória de um episódio que deixou marcas profundas na comunidade.

“Hoje estamos fazendo um reconhecimento, um pedido de perdão formal do Estado brasileiro. Não é revanchismo. É a afirmação da dignidade da pessoa humana e do respeito que o Estado tem que ter com seus cidadãos”, enfatizou o ministro Tarso Genro.

Estava previsto o julgamento de 91 processos, mas sete foram retirados de pauta pelos relatores durante a sessão plenária, realizada nesta quarta-feira (17), em Brasília. O resultado foi anunciado em São Domingos do Araguaia pelo presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão. Ele ressaltou a importância do trabalho de dois anos para recolher os depoimentos dos moradores.

“Esse é um momento histórico porque é um reconhecimento de que não só os militantes de esquerda foram atingidos pela repressão, mas inúmeros outros brasileiros. E estes cidadãos que estão aqui também são protagonistas dessa história”, ressaltou Paulo Abrão.

O ato representou uma reparação histórica a camponeses como Pedro Matos, 69 anos, preso em novembro de 1973, foi levado para Marabá e assistiu a várias sessões de tortura. “Esse negócio se a gente pudesse esquecer era melhor. Para nós é um momento (a anistia) de justiça. Mostra que o país realmente não pode admitir que uma coisa dessas aconteça”, relatou. Ele foi preso apenas por conhecer os guerrilheiros do Araguaia.

Os anistiados receberão prestação mensal vitalícia de dois salários mínimos mais um valor retroativo que varia entre R$ 80 mil e R$ 142 mil.

Clique no link para acessar a lista de processos deferidos e indeferidos.

Relatos de uma guerra

Para elucidar o caso, o órgão do Ministério da Justiça criou um grupo de trabalho, que atua no caso há mais de dois anos. Após duas visitas da Comissão à região do Araguaia, em 2007 e 2008, foram colhidos 287 depoimentos de moradores.

Os relatos, cruzados com documentos da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e do Ministério Público, revelam torturas bárbaras, abusos sexuais, trabalho escravo e tomada de terras e casas, que eram distribuídas como “prêmio” para quem ajudava na delação dos guerrilheiros. Muitos tiveram problemas psicológicos, ficaram incapazes de exercer profissão ou simplesmente desapareceram.
Os “paulistas”, como os moradores chamavam os militantes do PCdoB, se instalaram na região a partir de 1966. Antes mesmo de chegarem a atuar contra a ditadura, foram descobertos e alvo de operações militares entre 1972 e 1975.

Novos depoimentos

A Comissão de Anistia recebeu, até hoje, 304 requerimentos relacionados à Guerrilha do Araguaia – 26 de militantes e 278 de camponeses. Após esta Caravana, restarão 198 processos deste que é um dos casos mais complexos da Comissão, em razão da dificuldade em obter provas documentais.

Nesta sexta-feira (19), o órgão aproveitará a Caravana para realizar sessões complementares de oitivas na chácara da paróquia do município, a partir das 9 horas. Quatro turmas da Comissão tomarão cerca de 90 depoimentos de camponeses, como parte da instrução dos demais processos que aguardam decisão.