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2º SEMINÁRIO
LATINO AMERICANO DE ANISTIA E DIREITOS HUMANOS MOVIMENTOU BRASÍLIA NOS DIAS
14, 15 E 16 |
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LUCCHESI ADVOCACIA 21/10/08 Antes
da abertura oficial, marcada para o dia 15, o 2º Seminário Latino Americano
de Anistia e Direitos Humanos reuniu os anistiados e anistiandos
nos plenários da Câmara dos Deputados para a realização de oficinas. Os temas
debatidos foram: Exército; Marinha; Aeronáutica; A Comissão da Paz e a
interpretação dos instrumentos normativos que regulamentam a anistia; O
Tribunal de Contas da União e a anistia; O Ministério do Planejamento e a
anistia; Sindicalismo: o papel dos diversos movimentos de trabalhadores
urbanos e campesinos no processo de resistência e redemocratização do Brasil;
Arsenal da Marinha (civis) e A Anistia da Lei nº 8.878/94. Durante a tarde,
os anistiados se reuniram para iniciar a formatação de um documento oficial
para ser apresentado após o evento. A
abertura oficial aconteceu na manhã do dia 15, com as boas vindas dadas pelo
presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, que em
seguida entoou o Hino Nacional Brasileiro acompanhado por todos os anistiados
e anistiandos que já pela manhã lotavam o auditório
Nereu Ramos, no anexo 3 da
Câmara. Presidente
da Comissão de Direitos Humanos, o Deputado Pompeo
de Mattos comandou a mesa de debates da manhã. Em seu discurso, permitiu que
o lado poético viesse à tona e, além de recitar versos de própria autoria
para demonstrar a indignação em relação ao não cumprimento da Lei de Anistia,
também citou palavras de Bertold Brecht e do
próprio presidente Lula. -
Estamos desenhando um novo tempo, como diz a música. Acho que
nós somos o único país do mundo que temos uma lei que manda fazer e outra que
manda cumprir a lei que já tinha sido aprovada – concluiu, em
meio a aplausos de todos. Convidado
para palestrar sobre a contribuição da Secretaria Especial de Direitos
Humanos, o Ministro Paulo Vannucchi não pôde
comparecer e enviou Dra. Valéria para representá-lo. O mesmo fez o presidente
da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior, que enviou o conselheiro
Márcio Gontijo. Ambos deram um apanhado histórico e falaram da atuação da
Secretaria e da Comissão, respectivamente, ao longo dos anos. Ainda
na terceira mesa formada pela manhã, o professor Rafael Labrita,
representando a Advocacia Geral da União (AGU), colocou o órgão à disposição
dos anistiados na resolução dos problemas junto ao Tribunal de Contas da
União (TCU). -
Nosso papel até então foi um tanto quanto de coadjuvante. Nos
chegou que estariam ocorrendo problemas na avaliação feita pela
Comissão. Estamos à disposição para entender os entraves que estão
acontecendo no TCU. Nosso papel é dar o máximo de efetividade da lei,
buscando agilizar os processos junto ao TCU, vendo quais os equívocos estão
acontecendo. Quero que vocês identifiquem na AGU um parceiro – afirmou
Rafael. A
manhã ainda seguiu com palestra do Procurador Regional da República da 3ª
Região (SP), Dr. Marlon Alberto Weichert, que falou
sobre o tema “A Operação Bandeirante e o financiamento dos atos de
violação de Direitos Humanos durante a Ditadura Militar”. Primeira
palestrante internacional do seminário, Dra. Mirtha
Guianze
, presidenta de La asociación de Magistrados
Del Ministério Público Del Uruguay, destacou a
importância de um evento que reúna pessoas de diversos países da América
Latina. Operação
Condor e juventude foram destaque no Seminário. Um
dos temas recorrentes durante os debates foi a Operação Condor, explicada e
discutida pelos participantes que deram diversos pontos de vista. Descobridor
dos Arquivos do Terror do Governo Stroessner, o paraguaio Martin Almada apresentou os documentos que reuniu durante 15
anos de trabalho sobre a Operação Condor. Entre eles, a ata de nascimento da
operação. Almada aproveitou para pedir ao Governo
Lula que devolva os arquivos da guerrilha de 1970 ao Paraguai. -
Quando cheguei ontem a Brasília e no avião avisaram que estávamos no
aeroporto Jucelino Kubischek,
me lembrei de João Goulart e me lembrei das pessoas que morreram na operação
Condor. A
operação também foi tema do Procurador da República junto ao Tribunal de
Roma, o italiano Giancarlo Capaldo. A
mesa formada na parte da tarde ganhou um ar jovial com a presença da
presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lucia Stumpf.
Apesar da pouca idade e da aparência que pouco lembra os militantes de outras
épocas, Lucia mostrou que é boa de discurso e encantou a todos. -
É esse movimento de vocês que faz manter acesa a nossa chama. Somos cinco
milhões de estudantes herdeiros da luta de vocês – afirmou. Lucia
falou sobre a parceria que a UNE mantém com a Comissão de Anistia e o projeto
“Caravana da Anistia”, onde são promovidos julgamentos em
diversos lugares do país. Presidente
João Goulart foi lembrado durante evento. O
levantamento de dados históricos para o entendimento da causa dos anistiados
foi fundamental durante todo o seminário. Foi o que se pôde perceber na
palestra do jornalista da Folha de São Paulo, Cláudio Dantas Sequeira, que
mostrou todo seu conhecimento para explicar como funcionava o Serviço Secreto
Clandestino do Itamaraty. Parte viva da história do país, João Vicente
Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, também contribuiu ao dar um
depoimento emocionado, justamente no dia em que lançava o seu filme
“Jango em três atos”. Presidente do instituto que leva o nome de
seu pai, João levantou nome de torturadores da época da ditadura que ainda
estão soltos e relembrou o período do golpe militar em 31 de março de 1964. -
Quando o ex-embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon esteve no Brasil
para lançar seu livro, admitiu que o governo americano despejou
cinco milhões de dólares para estimular outras candidaturas que não fosse a
de Jango, no intuito de destruí-lo – contou. Outro
que entusiasmou a platéia com uma maneira simples e objetiva de remontar a
história foi o professor da UNB, Antonio Barbosa, que fez sua apresentação no
dia 16 (quinta-feira). Para abordar a Operação Brother Sam, tema de sua
palestra, ele fez um paralelo com a questão dos anistiados contando a
trajetória dos presidentes brasileiros a partir de 1964. -
A Operação Brother Sam era de guerra. Eles mandaram navios com armas,
mantimentos, aviões, tudo para caso a guerra civil durasse muito tempo.
Quando a operação foi montada, haviam cinco mil
militares americanos dentro do país. Logicamente, tudo com a ajuda de
governantes brasileiros – diz. Arquivos da ditadura: eles ainda existem
ou não? Outro tema que elevou os ânimos foi a
questão da abertura dos arquivos da ditadura. Começou com Marco Antonio
Barbosa, da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos da SEDH/PR, que
destacou a importância da Comissão de Anistia para a memória, inclusive
comentando o lançamento do livro “Direito à Memória e à Verdade”.
Pouco
depois foi a vez da Procuradora da República (São Paulo), Dra. Eugênia
Augusta Fávero, defender a tese de que não adianta mais quererem abrir os
arquivos, pois, segundo ela, eles não existem. -
A saída é a formação de uma comissão da verdade para levantarmos essas
histórias e irmos em busca de informações. Há
algumas semanas o Presidente Lula transferiu dados do SNI para o Arquivo
Nacional. Quando fui até lá pesquisar, vi que estava tudo microfilmado
e não tinha os anexos. Ou seja, quem passou essas informações? Quem garante
que está tudo lá? – disse. Dra.
Eugênia mostrou-se indignada quando afirmou que só no Brasil há limitação
quanto aos crimes cometidos contra a humanidade e não se utiliza tratados
internacionais, o que faz por vezes o Brasil virar um alvo fácil para
torturadores de outros países se abrigarem. -
O jurista brasileiro que disser que não pode aplicar a lei internacional está
esquecendo que nesse caso estão acobertando esse tipo de torturadores. Até
hoje está cheio de delegados que na época da ditadura eram torturadores
– disse. Outro
ponto levantado pela procuradora foi o fato da OAB em breve cobrar do STF uma
posição quanto a Lei de Anistia para os militares. -
Será muito importante escutar o que o STF tem a dizer. Seja para o bem ou
para o mal. Para
finalizar, brincou com os “hermanos”
argentinos. -
Vai ser muito ruim ver juízes argentinos tendo que julgar os torturadores
brasileiros. Dr.
Cezar Britto, Presidente do Conselho Federal da OAB, ao contrário da
procuradora Dra. Eugênia, acredita que os arquivos da ditadura existem. - E
caso não existam mais, quem os destruiu tem que ser punido, porque isso é
crime. Ele
aproveitou para anunciar que entre os dias 11 e 15 será feita uma conferência
da OAB, em Natal, quando a Comissão de Anistia julgará casos de advogados
perseguidos. Na ocasião, também será concedida a anistia oficial ao
ex-presidente João Goulart. |