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“INFELIZMENTE, ESTA É A LEI QUE
TEMOS QUE CUMPRIR” |
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ENTREVISTA COM PAULO ABRÃO PIRES JÚNIOR REVISTA ISTOÉ 22/04/08 Presidente da Comissão de Anistia critica legislação
que permite indenizações milionárias a vítimas da ditadura
Professor de direito da PUC do Rio Grande do Sul e doutorando da
PUC/RJ, o presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Paulo
Abrão Pires Júnior, debruça-se todas as semanas sobre os 25 mil processos que
restam para ser julgados. São pessoas que se sentiram atingidas pela ditadura
e buscam indenização do Estado. Ele administra uma estrutura de 125
funcionários e 22 conselheiros. Este ano, a comissão conseguiu reduzir para
R$ 3,6 mil o valor médio da indenização mensal paga
–esse valor atingiu R$ 5,6 mil no governo Fernando Henrique
Cardoso. Mesmo assim, a comissão é notícia todas as vezes que alguém recebe
quantias milionárias em “retroativos”, ou seja, prestações
atrasadas desde o momento em que o processo foi protocolado. Em meio às
críticas, os conselheiros iniciaram uma peregrinação pelo País para julgar os
processos nos locais onde as pessoas foram perseguidas. A Comissão de Anistia
deve funcionar até 2010, mas o prazo para novos pedidos de indenização pode
se encerrar em breve. Mineiro de Uberlândia, 32 anos, Paulo Abrão diz nesta entrevista
à ISTOÉ que é necessário estabelecer um prazo-limite para que os candidatos à
indenização ingressem com processos contra a União. O presidente da Comissão
de Anistia considera injustos os critérios da lei, que garante R$ 100 mil no
máximo a quem foi torturado e exilado durante o regime militar, mas manda pagar “retroativos” acima de R$ 1 milhão a
profissionais que perderam o emprego no período. “A Lei da Anistia não
é eqüitativa”, diz Paulo Abrão. “Infelizmente, essa é a
legislação que o Congresso Nacional aprovou.” Ele também considera
legítimo que descendentes de escravos levem ao Congresso Nacional suas
reivindicações de indenizações pela escravidão. ISTOÉ – Qual o valor concedido em indenizações
pela Comissão de Anistia até agora? Paulo Abrão Pires Júnior – O total é de R$ 2,4 bilhões. Eu
não diria que é muito nem pouco dinheiro. O que tem que ser averiguado é
efetivamente qual foi o custo que a ditadura brasileira impôs a uma série de
cidadãos brasileiros e que o Estado de Direito tem obrigação de reparar. ISTOÉ – Mas como explicar que esse
valor equivale à metade das indenizações da Alemanha às famílias das vítimas
do Holocausto? Abrão – A meu ver, isso é uma crítica
descabida. Se a nossa ditadura criou tantos prejuízos aos cidadãos
brasileiros quanto os que foram estabelecidos na Segunda Guerra Mundial, é
uma imprecisão técnica querer traduzir em termos econômicos de hoje regimes
de reparação que são totalmente incompatíveis. Desconheço quais foram os
critérios que o Estado alemão criou para poder fazer o pagamento ao Estado de
Israel. O fato é que esses critérios não são os mesmos que o Congresso
Nacional aprovou para as nossas indenizações. Comparar os dois valores é uma
crítica de má-fé. ISTOÉ – A maioria é pagamento de
atrasados ou mensalidades? Abrão – O grosso dessas reparações
envolve atrasados. O que agravou a situação foi a
demora do Estado brasileiro em regulamentar a lei que ia dispor sobre as
formas de indenização. Desde 1988 as pessoas tinham direito à reparação. Só
em 2002, ou seja, 14 anos depois, é que o Congresso Nacional veio a
regulamentar a lei. ISTOÉ – O cartunista Ziraldo foi
criticado porque conseguiu R$ 4 mil mensais, além
dos atrasados de R$ 1 milhão. O que o sr.
acha disso? Abrão – É muito bom. Isso só é possível
hoje porque nós vivemos numa democracia. No passado, não poderíamos fazer
isso. E vivemos numa democracia porque essas pessoas tanto lutaram. Que bom
que as pessoas podem manifestar suas críticas livremente e expressá-las, mesmo
que isso seja contrário aos atos de governo. Mas é importante que tenham a
consciência e a responsabilidade de se informar melhor sobre os trabalhos da
comissão. ISTOÉ – É justo que uma vítima da
tortura receba R$ 100 mil e um profissional que foi
afastado de seu emprego ganhe R$ 1,5 milhão de indenização mais R$ 20 mil
mensais? Abrão – A lei realmente não é equitativa no tratamento dessas duas situações. Mas a
Comissão de Anistia está amarrada a esses dispositivos legais. Infelizmente,
essa é a legislação que o Congresso aprovou. Nós temos obrigação de
aplicá-la. ISTOÉ – Mas outros países do Cone
Sul, como o Chile, têm pagamentos inferiores aos do Brasil. Abrão – O sistema brasileiro é muito
peculiar. Nós procuramos fazer a recomposição integral de todas as perdas que
a pessoa teve em razão do seu afastamento profissional. Em outros países da
América Latina se estabeleceu um valor único de reparação para todos os
perseguidos políticos, independentemente da história de cada um. ISTOÉ – Como ocorreu a mudança de
postura da comissão para pagar indenizações menores? Abrão – Antes, a comissão se fixava em
declarações prestadas pelas próprias empresas com as quais o perseguido tinha
vínculo, por vezes até o próprio sindicato, e no valor que ele ganharia hoje
se tivesse continuado no cargo. Isso gerava indenizações mais altas. A
mudança foi aplicar valores do mercado atual. ISTOÉ – Pelos novos critérios, a
família de Mário Covas não receberá o valor de indenização pedido (R$ 4,7
milhões)? Abrão – Nem pelos novos nem pelos
antigos. Já é consenso na comissão que perda de mandato parlamentar assegura
tão-somente uma prestação única pelo tempo que o parlamentar deixou de
exercer seu mandato. Esse tempo é calculado em 30 salários mínimos por ano de
perseguição política. Uma prestação única até o teto de R$ 100 mil. ISTOÉ – Há alguma resistência das
Forças Armadas em pagar indenizações? Abrão – Eu tive ciência de que ainda
está havendo alguma situação específica na Marinha. O problema não compete à
Comissão de Anistia, que reconhece o direito do anistiado e encaminha um
aviso ao Ministério da Defesa para pagamento. Recebi algumas informações de
que alguns desses anistiados estão tendo dificuldades junto ao Comando da
Marinha para a efetivação desse direito. Mas essa é uma questão que o
anistiado tem que resolver junto ao Comando da Marinha. ISTOÉ – No Exército e na Aeronáutica
também há resistências? Abrão – Até onde eu saiba, não há
questões técnicas nesses comandos que estejam sendo levantadas. ISTOÉ – Quantos camponeses serão
indenizados por maus-tratos sofridos durante a Guerrilha do Araguaia? Abrão – Temos em torno de 240 pedidos
de moradores da região do Araguaia. Uma primeira incursão foi realizada no
ano passado pela comissão, em que foi feita uma oitiva de 136 moradores com
fins de instrução dos processos. Ainda em abril, no mais tardar em maio, nós vamos ao Araguaia para fazer o julgamento desses
processos. Temos que olhar um a um para verificar se há documentação que
efetivamente comprove que a pessoa sofreu a perseguição, que comprove que ela
morava no local. Como se trata de uma região muito pobre, muitas vezes nem
eles próprios têm todos os documentos para instruírem seus processos, o que
causa uma dificuldade para a concessão dessas anistias. ISTOÉ – A maioria desses camponeses
foi torturada? Abrão – São pessoas que foram
submetidas pelos militares que lá estavam a servir como informantes das
Forças Armadas na perseguição aos guerrilheiros. No processo de cooptação das
pessoas da região para colaborar com as Forças Armadas, algumas foram presas,
outras prestaram serviços por semanas dentro dos quartéis, outras ainda foram
obrigadas a entrar na mata junto com os militares. Há pessoas que tiveram
seus estabelecimentos comerciais invadidos para prestar esclarecimentos sobre
eventuais vendas que faziam a guerrilheiros. Uma senhora alega que um militar
seqüestrou dois filhos dela. São relatos muito dramáticos. ISTOÉ – Por que a indenização da
Lei dos Mortos e Desaparecidos estabelece teto máximo de R$ 150 mil por
família e a Lei da Anistia, R$ 100 mil? Abrão – São duas legislações distintas.
Uma foi aprovada num ambiente político, em ISTOÉ – Houve exorbitância nas
quantias pagas no passado? Abrão – Eu prefiro não fazer nenhum
juízo de valor em relação às decisões das comissões de anistia anteriores. O
que quero ressaltar é que a atual comissão de anistia tem seus próprios
parâmetros e procura aplicar a Lei da Anistia à luz da Constituição. ISTOÉ – O ministro Gilmar Mendes
disse em 2005 que algumas indenizações beiravam o estelionato. Abrão – Eu respeito a
opinião do ministro Gilmar Mendes sobre isso. ISTOÉ – Famílias de descendentes de
escravos pensam em pedir indenização. O que o sr. acha disso? Abrão – É uma reivindicação que eu
acredito ser legítima e que pode ser levada ao Congresso. Pela Lei de Anistia
não é possível, porque ela compreende a reparação a perseguidos por motivação
política entre 1946 e 1988. ISTOÉ – Quantas pessoas já se
beneficiaram com indenizações da comissão? Abrão – De 37 mil processos analisados
pela Comissão de Anistia, somente 9.800 receberam algum tipo de reparação
econômica. A média dessas indenizações é de R$ 3.653 mensais. ISTOÉ – Por quanto tempo as pessoas
poderão ainda entrar com pedido de indenização? Abrão – Quando assumimos a comissão,
fizemos um estudo que apontava que no ritmo em que trabalhávamos demoraria 16
anos para julgar todos os requerimentos que já tinham sido protocolados.
Fizemos mudanças administrativas, triplicamos a quantidade de turmas de
julgamento, aumentando o número de conselheiros e de funcionários da
comissão, visando à maior celeridade de julgamentos. Essa série de mudanças
administrativas tem o objetivo de finalizar todos os processos até 2010. ISTOÉ – Até lá, todo mundo que se
sentiu lesado durante a ditadura pode fazer o pedido? Abrão – Se não houver nenhum
estabelecimento de legislação com limite de prazo de entrada dos
requerimentos, o protocolo está ISTOÉ – Os acusados de envolvimento
em tortura devem ser julgados? Abrão – Esse hoje é um tema para o Poder
Judiciário. Deve ser feita uma interpretação da Constituição para se poder
averiguar se efetivamente pela lei de 1979, que anistiou militares pelos
crimes de tortura e demais crimes que praticaram durante o regime, eles estão
ou não livres da responsabilidade penal. ISTOÉ – A expressão
“bolsa-ditadura” é pejorativa? Abrão – Acho inadequada. Denominar um
direito que é uma conquista da cidadania brasileira aprovada por unanimidade
pelo Congresso de forma pejorativa desqualifica todas as pessoas que tanto
lutaram e tiveram prejuízos efetivos. Estamos aplicando o princípio de que,
se o Estado causa prejuízo, o Estado deve reparar. É assim em todas as
democracias ocidentais. |