DONA DE CASA MILITOU CONTRA
A DITADURA EM MINAS GERAIS
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Sob seu comando, o movimento mineiro feminista pela
anistia ganhou um caráter mais radical O ESTADÃO 22/08/09 EDUARDO KATTAH BELO HORIZONTE - Em meados de 1977,
manifestantes que participavam de um ato contra a prisão de estudantes que
tentavam realizar Em pouco tempo, a mulher que num arroubo deixou a residência localizada
em frente ao 12º Batalhão de Infantaria, no bairro Barro Preto, para
engrossar o protesto no Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina da UFMG,
se tornaria, ao lado de Terezinha Zerbini, Em Minas, Terezinha já havia se reunido com um núcleo de mulheres, que se
impressionaram com o discurso de Dona Helena na UFMG e a convidaram para
fazer parte do movimento. Dias depois, ela não só participou da constituição,
como foi eleita a presidente da seção regional do MFPA - que chegou a ter
cerca de 300 participantes. Dona Helena não tinha nenhum parente preso,
assassinado ou desaparecido, mas se pautava pelas concepção humanista e se
dizia socialista. Sob seu comando, o movimento mineiro feminista pela anistia ganhou um
caráter mais radical. "Aqui não era esse negócio de busca da
reunificação da família brasileira ou de reconciliação nacional, nada disso.
Era um combate aberto mesmo ao regime militar", lembra a historiadora
Heloísa Greco, filha de Dona Helena, que também participou do movimento.
"A luta que acho que ela encarnou muito bem e elaborou de forma
consistente era uma luta contra a ditadura militar no seu arcabouço
ideológico e a doutrina de segurança nacional". Boa parte das militantes
pela anistia na capital mineira era originária do movimento estudantil e do
incipiente movimento feminista. "Éramos bastante jovens e já tínhamos
atuação política", recorda a economista Maria Dirlene Marques. A união dessa juventude com a aguerrida Dona Helena resultou em
ameaças e atentados contra as mulheres, atribuídas a grupos denominados
anticomunistas. As reuniões semanais eram realizadas na Igreja São Francisco
das Chagas, no bairro Carlos Prates, que pelo menos por duas oportunidades
foi alvo de bombas. A residência presidente do movimento também não escapou
de atentados. "Além ameaças por telefone, cartas, grampos e violação de
correspondência", ressalta Heloísa. Alvo constante, em abril de 1978, Dona Helena encontrou um bilhete no
para-brisa de seu carro: "Olho por olho. A cada ação uma reação",
dizia o comunicado assinado pelo GAC (Grupo Anticomunista). A presidente do
MFPA-MG, contudo, nunca se intimidou. "Era uma figura que nos dava uma
certa esperança da luta ir adiante", observou Antônia Vitória Aranha,
ex-integrante do movimento e irmã de Idalísio Soares Aranha Filho,
desaparecido na guerrilha do Araguaia. Vanguarda - Dona Helena, que depois chegaria a presidir o Comitê
Brasileiro de Anistia em Minas, atualmente está com 93 anos e continua
morando Para a filha, ela e Terezinha protagonizaram uma época em que as mulheres
tiveram papel de vanguarda. "Desde 1970 as mães, irmãs, companheiras,
filhas dos presos políticos e mortos e desaparecidos já estavam acumulando
forças para isso (a anistia). O que tinha uma característica familiar deu um
salto de qualidade para a questão política", salientou. Três décadas depois da promulgação da Lei 6.683, mulheres que
participaram do Movimento Feminino pela Anistia em Minas e parentes de
desaparecidos políticos ainda cobram a uma medida ampla geral e irrestrita,
como exigia o conjunto dos movimentos de resistência ao regime militar. Para entidades como o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e
Cidadania, a anistia deveria abranger seus "princípios
programáticos". Entre eles, a responsabilização jurídica do Estado e dos
agentes da repressão "por praticarem crimes de lesa humanidade"; a
erradicação da tortura; o esclarecimento das circunstâncias em que ocorreram
os assassinatos dos opositores da ditadura e localização dos restos mortais dos
desaparecidos políticos. "O que existe em termos de política de Estado
em relação a essas questões é um jogo de cena", acusa a historiadora
Heloísa Greco, que preside o instituto. "O que prevalece enquanto
política de Estado é a estratégia do esquecimento". Atualmente, a crítica mais recorrente é em relação à ausência de
representantes da sociedade civil e, principalmente, de familiares dos
desaparecidos na expedição - sob o comando do Ministério da Defesa - de busca
dos restos mortais dos guerrilheiros no Araguaia. "Isso está dentro de uma agenda que exclui
todos aqueles princípios da luta pela anistia pelos quais a gente
batalhou", reclama Heloísa. "A reivindicação era uma anistia ampla,
geral e irrestrita e isso só aconteceu para os torturadores. Para o nosso lado,
a anistia foi parcial e restrita", afirma a pedagoga Valéria Costa
Couto, irmã de Walkiria Afonso Costa, uma das guerrilheiras
desaparecidas no Araguaia. "Quando eles aceitam a anistia da forma que
eles aceitaram, foi para enfocar o esquecimento. É fácil jogar as coisas para
debaixo do tapete". |