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"DITABRANDA" NA FOLHA |
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OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA 23/02/09 Direita, volver! LUIZ ANTONIO MAGALHÃES
Há males que vêm para o bem, lembra o dito popular.
No último dia 17 de fevereiro, em Editorial contra o presidente venezuelano
Hugo Chávez, a Folha de S. Paulo qualificou,
assim como quem não quer nada, en passant, de "ditabranda"
o regime militar que vigorou no Brasil entre Para que não reste nenhuma dúvida sobre o que foi
escrito na Folha, vai a seguir a transcrição do trecho que vem
provocando tanta polêmica: "Mas,
se as chamadas ‘ditabrandas’ -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura
institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de
disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano,
inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso." Para começo de conversa, causa espécie que o jornal
escreva "as chamadas ‘ditabrandas’"
quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia
de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez
uma busca no Google e constatou que a pesquisa
retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém
antes qualificou a ditadura brasileira de "ditabranda". Aliás, a busca no Google
já vem carregada de ironia, pois antes da primeira indicação de link, o buscador pergunta: "você quis dizer dieta
branda?" Como bem sabem os iniciados, toda vez que alguém erra a digitação
da palavra, o Google cuida de corrigir ou sugerir o
nome correto. Ditabranda, portanto, é coisa lá da rua Barão de Limeira mesmo. Dieta branda teria sido
realmente mais feliz. Mas até aqui, é justo dizer, a direção da Folha
e seus editorialistas têm todo o direito de achar
que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha,
provavelmente o assinante do Estadão jamais
leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito
mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto
é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o
quão duro foi o dito governo. De toda maneira, o diário da
família Frias não precisa se envergonhar em qualificar de ditabranda o regime em questão, da mesma maneira que a
turma da Abril não só pensa que pegaram leve como anda saudosa de um novo
período semelhante, especialmente para tirar essa gente barbuda e mal educada
que insiste em permanecer altamente popular em meio à maior crise do
capitalismo. Nota da Redação: jornal muda de rumo Não foi no editorial, portanto, que a Folha
perdeu a mão. Nos dias que se seguiram à publicação daquela jóia do
pensamento que emerge no nono andar do belo prédio do jornal, os leitores
naturalmente reclamaram, enviando cartas indignadas à redação. O Painel do
Leitor publicou algumas nos dias 18 e 19, mas foi no dia 20 de fevereiro que
o jornal mostrou a sua verdadeira cara. Depois de uma sequência
de cartas de leitores, apareceram duas de "figurões", seguidas por
uma inacreditável resposta da Redação, como segue abaixo. "Mas
o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda’? Quando
se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de
cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas.
Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão
no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque
aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala
-que horror!" MARIA VICTORIA DE MESQUITA
BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP) "O
leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão.
O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o
aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos
em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo,
menos com o respeito devido à pessoa humana." FÁBIO KONDER COMPARATO ,
professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP) Nota
da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da
qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos
professores Comparato e Benevides,
figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de
esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é
obviamente cínica e mentirosa. É preciso ler com calma a tal Nota da Redação.
Que a Folha respeite a opinião dos leitores é o mínimo que se pode
esperar. Imagine o grau de arrogância, que já não é baixo, se não
respeitasse... Mas o que realmente choca neste caso é a Redação classificar
de "obviamente cínica e mentirosa" a indignação de Fábio Konder Comparato e Maria
Victoria Benevides, como se para que os dois se
indignassem com a barbeiragem do jornal fosse necessária a indignação prévia
com Fidel Castro. Este observador aprendeu com seu avô, pioneiro do
ensino de Filosofia na Universidade de São Paulo, que o fiofó
nada tem a ver com as calças. Ou, como diria outro filósofo, este da esfera
futebolística, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Comparato e Benevides não têm
"autorização" da Folha para se indignarem, precisam antes
bradar que não gostam de Fidel e seus amigos e, principalmente, que Cuba é
uma DI-TA-DU-RA. Ou será que se os eméritos professores também
qualificarem o regime cubano de "ditabranda"
a Folha já deixaria de considerar "cínica e mentirosa" a
indignação dos dois? O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem
lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca
que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas
não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do
Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar
Fábio Konder Comparato de
cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A
nota veio de cima, o que só reforça a ideia de que
também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o
juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira. Não será surpresa se a Folha roubar Reinaldo
Azevedo ou Diogo Mainardi da Veja. A esta
altura, é bem provável, inclusive, que ambos já tenham sido sondados. E,
ironia das ironias, não demora muito para o leitorado
paulista de esquerda migrar para o Estadão.
Há mesmo males que vem para o bem: nível de azia na leitura será bem menor... PS em 22/02: O ombudsman da Folha, em sua
coluna semana publicada no domingo (22/02), parece concordar com este
observador. Evidentemente, Carlos Eduardo Lins e Silva foi
mais ameno na forma, mas não deixou de assinalar o despropósito da Nota da
Redação do jornal, conforme se pode ver abaixo: Duas
opiniões que mobilizam muitos leitores Já
me referi aqui ao escopo do trabalho do ombudsman, que não abarca as opiniões
publicadas pelo jornal, em editoriais, colunas ou artigos. O
ombudsman se atém aos aspectos técnicos, factuais, comprováveis,
verificáveis. Opinião é como religião, time de futebol, convicção ideológica:
cada um tem a sua e nenhuma é melhor que outra. Mas,
talvez porque, como ensinava Spencer, a opinião é determinada em última
análise pelos sentimentos, não pelo intelecto, ela mobiliza manifestação de
muitos leitores. Esta
semana, duas motivaram pelo menos 115 mensagens. Sem entrar no seu mérito
opinativo, vou tratar de ambas. Um
post de blog do Folha Online trazia no título as palavras vadias e vagabundas
acima de foto em que apareciam Marta Suplicy e Dilma
Rousseff. Pareceu-me uma insinuação de mau gosto e
insultuosa. Um editorial com referência ao regime militar
brasileiro provocou cartas publicadas no "Painel do Leitor".
Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que
julgo essencial o jornal manter com seus leitores. |