FREI BETTO: OS 30 ANOS DA ANISTIA.
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O DIA ONLINE 23/08/09 AUTOR DE “CARTAS DE PRISÃO” Rio - Várias
manifestações foram programadas para festejar os 30 anos da Lei de Anistia,
decretada e sancionada pelo presidente João Figueiredo, em 1979. Teve por
objetivo atender, prioritariamente, aos interesses das Forças Armadas. Peça de
aberração jurídica, a lei diz, em seu primeiro artigo, que “é concedida
anistia a todos quantos (...) cometeram crimes políticos ou conexos com
estes”. No parágrafo 1º afirma-se: “Consideram-se conexos (...)
os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou
praticados por motivação política”. O adjetivo
“conexo” é o guarda-chuva sob o qual se abrigam todos aqueles
que, em nome da lei e acobertados pelo governo militar, torturaram,
assassinaram e deram sumiço nos corpos de suas vítimas. Ora, como se pode
anistiar quem jamais foi considerado culpado ou condenado? Anistia
significa perdão. Perdoa-se a quem cometeu uma falta ou pecado. Se jamais os
algozes assumiram os hediondos atos praticados por eles durante a ditadura,
por que beneficiá-los com a anistia? O
“conexo” encerra o reconhecimento, por parte da ditadura, de que
seus agentes “cometeram crimes”. É preciso lembrar: segundo a
Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a ditadura brasileira produziu 474
mortos e desaparecidos; 4.877 políticos tiveram seus mandatos cassados; 10
mil pessoas foram exiladas; cerca de 20 mil condenadas por auditorias
militares. Livros
como “Brasil: Nunca Mais” e “Direito à Memória e à
Verdade” retratam a verdadeira face da ditadura. À memória e à verdade
falta acrescer a justiça, para que anistia não seja um termo conexo a
amnésia. |