ANISTIA DEVE SER INTERPRETADA COMO PEDIDO DE
DESCULPAS PELO ESTADO, DIZ TARSO.
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FOLHA ONLINE 28/08/2009 CHRISTIAN
BAINES O ministro Tarso Genro (Justiça) elogiou a Lei da Anistia por
tratar do assunto cruamente e, assim, evitar que os fatos se repitam. Segundo
ele, a lei permitiu o registro dos fatos em sua total clareza e tornou
possível a transição de um regime militar para um regime democrático. "A Justiça de Transição tem justamente o objetivo de, ao
tratar da verdade e da memória, permitir que a história registre os fatos em
sua total clareza, para que não se repitam", disse. Além dos conceitos de verdade e memória, o ministro destaca que
é importante reparar as vítimas do regime militar. "É dever do Estado indenizar os perseguidos políticos e é direito
da sociedade responsabilizar judicialmente aqueles que romperam com a
legalidade, os direitos humanos e cometeram crimes contra a humanidade."
Para ele, a anistia não deve ser interpretada com um perdão dado
pelos vencedores, como diz o conceito tradicional do Direito, mas sim como um pedido de desculpas pelo Estado àqueles que resistiram
à quebra da democracia. Assim, o governo brasileiro inverte o conceito tradicional.
"Somos nós, o Estado, que pedimos desculpas. Não é o Estado que está
perdoando os que 'erraram' ou foram 'criminosos'", afirmou. Em relação ao direito de anistia aos agentes públicos, Tarso
novamente se mostrou favorável à punição dos torturadores. Ao lembrar que há
uma ação da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) protocolada no STF (Supremo
Tribunal Federal) justamente sobre essa questão, o ministro disse que não é
preciso revisar a lei, mas sim avaliar os crimes de tortura e assassinato
como imprescritíveis, conforme tratados internacionais. "Basta considerar que os crimes de lesa-humanidade não
prescrevem, conforme tratados internacionais, e, portanto, estão fora da
legislação que tratou da anistia após os anos de ditadura", afirmou. Os grupos contrários à punição alegam, porém, que a Constituição
Federal determina que apenas os crimes de racismo não prescrevem.
Eles se referem ao inciso 42 do artigo 5º, o qual diz que "a prática de
racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de
reclusão". "Reparação" O pagamento de indenização às vítimas do regime militar já foi
criticado por ser realizado de maneira indiscriminada e de pagar valores
muitos altos. Segundo o ministro, isso acabou e, hoje, os valores são muito
próximos à quantia paga pela Previdência Social. "A média das remunerações mensais, que chegou a ser próxima
a R$ 6.000, hoje está em torno de R$ 3.000, em harmonia com os valores pagos
na Previdência Social e reduzindo a drástica distância que havia entre os beneficiados."
Tarso aproveitou para sair em defesa do pagamento de
indenizações. Segundo ele, a "reparação" é um dos quatro elementos
centrais --junto da verdade e da memória, do restabelecimento da Justiça e da
reforma das instituições-- para tratar o legado histórico da violência dos
regimes autoritários. "A maior celeridade dos julgamentos de pedidos de reparação
permite aos cidadãos atingidos pelos atos de violência da repressão receber o
pedido de desculpas do Estado. (...) A Comissão de Anistia rompeu a cultura
do medo, reafirmou que não deve haver temas proibidos na nossa
sociedade", disse. |