EX-COMBATENTE DIZ QUE MEDO A DEIXOU UM ANO EM CASA E QUE ANISTIA A LIBERTOU.

FOLHA ONLINE

28/08/2009
KARLA LOSSE MENDES

Ex-combatente da guerrilha do Araguaia, Luzia Reis ficou presa por quase um ano, período em que foi "barbaramente" torturada. Mas, mesmo após ter sido solta, ela conta que ficou mais de um ano sem sair de casa por medo de ser assassinada e somente depois da assinatura da Lei de Anistia é que começou a se sentir mais segura para retornar às atividades cotidianas.

"Depois de solta eu fiquei muito doente. Depois de muita tortura, você não fica livre. Eu fiquei mais de um ano sem sair de casa. Quando houve a anistia é que eu comecei a ficar mais segura'', disse.

Hoje com 59 anos, Luzia conta que sua história com a Guerrilha do Araguaia começou quando ela tinha apenas 22. Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, ela era militante do Partido Comunista e participava de entidades estudantis. Com o acirramento da ditadura militar, sua condição de estudante participativa a levou para a clandestinidade.

"Naquele período houve várias perseguições. Estudantes eram jubilados. A UNE [União Nacional dos Estudantes] e os diretórios acadêmicos passaram para a clandestinidade", disse.

Segundo Luzia, desde 62 o partido Comunista cogitava a opção pela luta armada. "Quem estava sendo procurado ou se fingia de morte ou ia para a clandestinidade. Minha casa estava sendo observada, minha família pressionada. Eu fiquei seis meses trancada. Eu não tinha escolha, eu optei por ir para o interior onde havia a preparação para a luta armada", afirmou.

Ela conta que, ao chegar à região do Araguaia, o que encontrou foi o partido em preparação ainda inicial para a luta armada. Os guerrilheiros tentavam se integrar com a população local. "Nós plantávamos arroz, alguns eram professores, outros enfermeiros", contou.

Seis meses depois de chegar, Luzia foi presa. Na época, ela participava do destacamento C, chefiada pelo guerrilheiro Bergson Gurjão Farias.

Segundo ela, a guerrilha não tinha condições de reagir. "O início da luta armada não estava previsto para aquele momento. Nós não tínhamos uma preparação militar adequada, a rede de informações era precaríssima, na base de mensageiro. A rede de abastecimento era precária e os armamentos sem dúvida."

Luzia conta que ficou presa quase um ano. "Nós todos fomos barbaramente torturados. Eu não sei como não enlouqueci."

Legislação

Hoje, ela diz que a ausência de identificação dos ex-companheiros mortos e de notícias sobre a forma com que foram sepultados a perturba. "O governo ainda está muito devagar. Existem corpos resgatados há 13 anos e somente agora que foi identificada a ossada de um guerrilheiro, o Bergson Gurjão de Farias, que era o chefe do meu grupo."

"Eu fico muito triste, até me perturba muito a notícia de que pessoas que eu conhecia foram enterradas sem a cabeça. Que tipo de guerra é essa que não se faz prisioneiro?", questionou. Segundo Luzia, pessoas que foram presas depois dela teriam sido executadas na prisão.

"Os militares deveriam resgatar os verdadeiros princípios das Forças Armadas, que não é este. Fazer autocrítica e pedir perdão para as famílias. Ser transparente com a sociedade brasileira. Com essa chaga a gente não tem uma democracia completa", afirmou.

Para ela, seria necessária também a punição dos torturadores. "Eu sou a favor de que a Lei de Anistia não contempla militares criminosos. Eu acho que a Lei de Anistia deixa em aberto para que haja processo. Ela não está clara defendendo o torturador, aliás, nenhum funcionário público que cometa crimes."