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Brasília,
02 de agosto de 2011.

O Conversa Afiada publica artigo do jornalista Luiz Claudio Cunha
que, recentemente, em solenidade na Universidade de Brasília, recomendou a extinção da Lei da Anistia.
O valente Sarney do lado de lá
Luiz Cláudio Cunha *
Pego em flagrante delito como defensor do indefensável, o senador José
Sarney, presidente do Congresso Nacional, esperou calado até a véspera da
audiência na Justiça paulista para externar sua repulsa à condição de
testemunha de defesa do coronel da reserva do Exército Carlos Alberto
Brilhante Ustra.
Como major, nos anos chumbados do Governo Médici, Ustra
criou e comandou no II Exército de São Paulo o DOI-CODI da rua
Tutóia, ganhando por merecimento a condição
de símbolo vivo da repressão mais feroz da ditadura — o regime
que Sarney defendia sem rebuço, como cacique do partido dos militares, a
ARENA. Se não apoiava, Sarney nunca expressou publicamente esta suposta
contrariedade. Permaneceu corajosamente silente.
Nesta quarta-feira, 27, começou em São Paulo o processo em que a família do
jornalista Luiz Eduardo Merlino acusa Ustra pela morte em julho de 1971 do jovem de 22 anos,
após quatro dias de brutal tortura na máquina de moer carne administrada por Ustra. Os depoimentos devastadores do primeiro dia dos
presos políticos que sobreviveram àquele circo de horrores — segundo
relato do criminalista Fábio Konder Comparato, advogado da família Merlino
— incluem a ordem de Ustra para que um
caminhão passasse várias vezes sobre o cadáver do jornalista, para justificar
a farsa posterior do atropelamento numa rodovia. Na verdade, Merlino morreu num processo agudo de gangrena nas pernas,
após horas pendurado no pau-de-arara, o instrumento de trabalho preferido na
repartição de Ustra.
Estes são os fatos, que resgatam a história que começa a ser garimpada no
tribunal paulista. Sarney não se incomodou com isso, mas sim com o texto,
assinado por mim, onde eu denunciava a abjeta irmandade entre o senador e o
torturador no âmbito da Justiça.
Um dia antes da audiência histórica desta semana, o senador tentou se
desvincular da sanguinolenta figura do coronel. Através de sua assessoria de
imprensa, Sarney enviou-me uma contestação contra minhas “imprecisões
de ordem técnica”. O senador alinhou este exemplo de sua pretérita
valentia: “Em 1967, o general Dilermando Gomes Monteiro já acusava
Sarney de proteger comunistas, conforme documentos da 10a Região Militar
levantados pela jornalista Regina Echeverria. O
mesmo general Dilermando que comandava o II Exército quando foi assassinado o
operário Manoel Fiel Filho.”
É apenas uma baita imprecisão de Sarney, que eu corrijo agora: Dilermando
Gomes Monteiro, o general que perseguia no Maranhão os comunistas que o
governador José Sarney dizia proteger, em 1967, não é o mesmo comandante do
II Exército de São Paulo, de 1976, quando morreu o operário Fiel Filho.
Detido em dia 16 de janeiro por dois agentes do DOI-CODI na fábrica onde
trabalhava, Fiel apareceu morto no dia seguinte, enforcado com as próprias
meias. O mesmo desfecho de quatro meses antes, quando ali morreu, de forma
semelhante, o jornalista Vladimir Herzog. O general que comandou as duas
mortes era Ednardo D’Ávila
Melo, exonerado dois dias depois pelo presidente Ernesto Geisel. É
justamente o general Dilermando Gomes Monteiro quem assume o comando paulista
para refrear os radicais do DOI-CODI.
O atual presidente do Congresso espanca impiedosamente a verdade quando diz,
com comovente autoindulgência: “Sarney, como
mostram os fatos, esteve sempre do lado oposto ao dos torturadores.”
É fácil provar que é exatamente o oposto: Sarney estava lá, do lado deles. Em
20 de dezembro de 1975, três meses após a morte de Herzog, o Exército
divulgou o relatório do IPM criado por ordem de Geisel para supostamente
investigar o assunto.
Com o cinismo peculiar ao coronel Ustra, que hoje
nomeia Sarney como sua testemunha de defesa, a Portaria do Comando do II
Exército justificava a instauração do inquérito policial-militar “para
apurar as circunstâncias em que ocorreu o suicídio”. Ou seja, na
largada, os militares já davam o veredito forçado
— ‘suicídio’ — para a investigação ainda não
consumada sobre a morte de Herzog, um assassinato sob torturas que repetia,
cinco anos depois, o que ocorreu com o jornalista Luiz Eduardo Merlino no mesmo DOI-CODI da rua
Tutóia, então sob a administração direta de seu
criador, o coronel Ustra.Indignados com a
desfaçatez, os jornalistas brasileiros redigiram no início de janeiro de 1976
um manifesto — ‘Em Nome da Verdade’— denunciando na
1ª Auditoria Militar de São Paulo os termos absurdos daquele relatório
fraudulento, que sacramentava a farsa e acobertava o crime. Eram tempos de
muito medo e as assinaturas precisavam ser recolhidas uma a uma.
Então chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, eu
percorri com outros colegas todas as redações de jornais, rádios, TVs e
sucursais na capital gaúcha. No total, sob a liderança do bravo Audálio Dantas e do Sindicato dos Jornalistas de São
Paulo, recolhemos 1.004 assinaturas em todo o país. Nenhum jornal quis
publicar nosso abaixo-assinado, que reclamava verdade e justiça. A exceção
foi O Estado de S.Paulo, que publicou o documento
como matéria paga.
Na lista de 1.004 jornalistas, todos em franca oposição aos torturadores,
podem ser encontrados 43 jornalistas com José no nome.
Entre eles, não existe nenhum José Sarney, embora o atual senador fosse
também jornalista, dono de jornal e emissoras de TV e rádio no Maranhão.
Sarney não estava no abaixo-assinado justamente porque estava do outro lado.
O bravo jornalista maranhense, aliás, exercia o seu primeiro mandato como
senador da ARENA, a legenda da ditadura que sustentava politicamente o regime
de ferro e fogo que sustentava os métodos e aparatos doídos de Ustra e seus comparsas do DOI-CODI.
Estes são os fatos, não meras ‘imprecisões de ordem técnica’.
Sua estrondosa e oblíqua aparição no tardio julgamento de Ustra
escancara, agora, o melancólico mergulho do imortal Sarney neste brejal de
inverdade, violência e desmemória.
Sarney, como mostram os fatos, não estava do lado oposto ao dos torturadores.
Sarney escolheu, há tempos, o seu lado.
Sarney estava lá, ao lado deles. Como está agora, na defesa de Ustra.
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