Dilma agita os
quartéis
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Brasília,
08 de agosto de 2011. As reações de bastidores nos meios militares, já em plena
efervescência, fazem emergir os comentários de que ocorreu mais uma indicação
de Lula para o governo Dilma, com a posse de Celso Amorim no Ministério da
Defesa
César Fonseca Redação Jornal da Comunidade
Foto: Wilson Dias/ABrA posse
de Celso Amorim, considerado de esquerda, no Ministério da Defesa deixa os
militares de direita muito preocupados Sai a direita e entra a esquerda para tomar conta do Ministério da Defesa, no dia em que o mundo enfrentou violenta queda das bolsas pelo mundo, sinalizando aprofundamento da bancarrota capitalista que tende a afetar a economia brasileira. O ex-ministro Nelson Jobim, aliado do sistema financeiro, que o queria para ser coordenador político do governo Dilma, homem de confiança da embaixada dos Estados Unidos, segundo o site Wikileaks, sintonizado com a direita militar resistente à revisão da Lei de Anistia e à abertura dos arquivos da ditadura, dá lugar ao ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, do governo Lula, considerado de esquerda.
As reações de bastidores nos meios militares já em plena efervescência fazem emergir comentários de que ocorreu mais uma indicação para o governo Dilma que teria sido articulada pelo ex-presidente Lula. O tempo político, portanto, esquenta no meio militar, onde Jobim tornara-se reconhecidamente opositor das tentativas da esquerda de mudar o status quo político conservador historicamente vigente no Forte Apache, desde o golpe militar que derrubou Jango Goulart em 1964. Teria havido uma aliança entre Jobim e a direita militar que estaria resistindo às tentativas dos grupos políticos sintonizados com o pensamento político de Dilma Rousseff, posicionada, teoricamente, em favor da revisão da Lei de Anistia e da abertura dos porões da ditadura, como acontece, por exemplo, na Argentina, no Uruguai e no Chile, onde a sociedade pressiona para uma revisão da história recente latinoamericana, no compasso da redemocratização? O avanço dos movimentos sociais que fazem renascer o pensamento nacional-socialista-integracionista no continente sul-americano colocaria em cena novo contexto que lança ventania renovadora no pensamento militar? Dilma Rousseff, ex-guerrilheira idealista, que, nesse momento, empreende cruzada ética dentro do corporativismo político vigente dentro da máquina pública brasileira, cercada de corrupção, assustando toda a sua base política no Congresso, estaria ou não desagradando a direita conservadora das forças armadas, ressentida com sua posição eventualmente favorável à revisão do passado? O ministro Jobim, em sua extroversão agressiva diante da presidente, lançando indiretas insinuantes quanto ao que considerou trapalhada governamental na discussão sobre abertura dos arquivos secretos, estaria ou não conspirando, junto com essa direita militar, contra a ex-guerrilheira, hoje titular do poder nacional, para evitar investigações sobre o passado recente brasileiro, manchado pela intolerância militar à democracia? Ao demitir Jobim, a presidente estaria ou não desarmando essa possível conspiração que poderia estar crescendo e dando corda para o ministro ser, cada vez mais, agressivo verbalmente contra ela, a ponto de não medir as consequências dos seus atos que levaria a sua própria degola? Freud explica Não há como não cogitar que toda a ação política das últimas semanas empreendidas por Jobim, colocando-o como verdadeiro espalha brasa na Esplanada dos Ministérios, tenha sido realizada a partir de um determinado cálculo. Inteligente como é, sagaz, experiente, rodado como pneu careca nas avenidas do poder nacional, conhecedor profundo das articulações de bastidores, superbem relacionado com a plutocracia financeira, à qual serviu, na Constituinte, escrevendo artigo constitucional que iria favorecer, amplamente, os interesses da bancocracia (art. 166, parágrafo terceiro, item II, letra b, de acordo com pesquisas realizadas pelos professores Pedro Resende, de engenharia computacional, e Adriano Benayon, de economia internacional, da Universidade de Brasília), o ex-ministro, que foi capaz de transitar do governo tucano, de FHC, para o petista, de Lula, prosseguindo no de Dilma, composto de ampla aliança, sairia dando tiro na presidente, ingenuamente? Teria dito, gratuitamente, o que disse, configurando uma língua destemperada, inconsequente, para confirmar o dito popular segundo o qual quem fala demais dá bom dia a cavalo? Ou algo mais estaria por trás de sua inteligente perspicácia, amparando e estimulando sua ousadia política tipo guerrilheiras, tal como a presidente fora no passado? Seria comum um subordinado na estrutura do poder agredir, de graça, a sua superior, dizendo barbaridades, sem imaginar que seria mandado para o olho da rua, como acabou acontecendo? Os idiotas teriam perdido a modéstia, tornando-se extrovertidos, afirmou durante a comemoração dos oitenta anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de cujo governo foi ministro da Justiça. Ora, quem são os idiotas, nessa crítica velada, indireta, violenta? As palavras, segundo Freud, servem para esconder o pensamento. Portanto... Tratou-se, na prática, de um tapa na cara da titular do poder. Depois, ele, continuando sua peculiar sinceridade, disse, ao ser perguntado pelo repórter Fernando Rodrigues, da TV UOL, em quem teria votado para presidente da República, confirmou que o seu escolhido fora José Serra e não Dilma. Sinceridade saudável e democrática, sem dúvida. Mas, convenha-se, dizer isso, depois de ter dito que está cercado de idiotas que perderam a modéstia, não há como não associar a opção dele pelo voto em Serra, que não seria, claro, um voto em alguém idiota, com a não opção sua em não votar em quem hoje, subconscientemente, acusa de estar cercada de imodestos idiotas. Ou seria a presidente a própria idiota, numa leitura freudiana? O mestre de Viena, autor de A interpretação dos sonhos, explicaria? As interpretações existem como produto da análise de declarações feitas a posteriori que são trazidas a valor presente no calor da crise, que culmina, agora, com a demissão do ministro. O espalha brasa que colocou fogo nas próprias vestes
Foto: Divulgação
Ferido em seu ego, Jobim teria decidido imolar-se em uma demissão
espetacular Os destemperos verbais de Jobim ainda se estenderiam, mortiferamente, para o destino dele, claro, às novas ministras escolhidas por Dilma no calor de outras crises no início do seu governo, por conta da demissão do ex-ministro Antônio Palocci. Ao afirmar, à repórter Consuelo Diegues, da revista Piauí, de forma machista e preconceituosa, que Ideli Salvatti, da Articulação Institucional, é fraquinha, e que sua colega, ministra da Casa Civil, Glesi Hoffman, não conhece Brasília, suficientemente - dando a entender que ambas não conseguirão desempenhar a contento sua tarefa -, o ex-ministro jogou pá de cal sobre si mesmo em sua própria cova. Deu, portanto, bom dia ao cavalo ao falar demasiadamente.
Não se pode deixar de conjecturar que o ex-ministro era titular da Defesa, relacionado, portanto, com os militares, que, diante da presidente Dilma, estiveram - e ainda estão - desconfortados com a possibilidade, apoiada pela presidente, de abrir os porões da ditadura militar, para revisar fatos históricos delicados. Essa hipótese seria suficiente para dar asas ao ministro capazes de permitir a ele ser tão arrojado, para voar tão alto, na medida em que se tornou, ao lado da direita militar, um resistente às tentativas, veladamente ou não, apoiadas pela presidente de mexer em caixa de marimbondo? A tentativa de revisão à Lei de Anistia e de fixar prazos para abertura de arquivos secretos, a fim de abrir passagem a possíveis julgamentos de torturadores que ficaram impunes por crimes durante a ditadura, motivou ou não Jobim a buscar aliados da direita militar para peitar Dilma? Ou somente a psicologia seria capaz de explicar a
insanidade política de Nelson Jobim, que, diante da situação que o colocou
sem serventia, decidiu, ferido em seu ego de auto-suficiente
insatisfeito como um Narciso rejeitado, imolar-se? A história, um dia,
contará a verdade dessa espetacular demissão de alguém que tocou fogo nas
próprias vestes, depois de espalhar brasas por todos os lados. |