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Brasília,
12 de agosto de 2011.
Por Urariano Mota
06/8/ 2011

O livro “68 a geração que queria
mudar o mundo” é um calhamaço de 690 páginas que, em vez de assustar
pelo peso e volume, deixa em toda a gente um fascínio.
Explico, ou tento explicar. De agora em diante, ele será um volume de
consulta obrigatória, para que não se cometam mais tantos atentados à
história e à verossimilhança em telenovelas, peças e filmes no Brasil, quando
o assunto for ditadura.
Organizado por Eliete Ferrer, editado pela
Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no livro participam 100 autores
em 170 relatos. Em mensagem coletiva no grupo da internet “os amigos de
68”,
Eliete informa que nele se encontram
“histórias reais ocorridas desde 1964 até a abertura política - nas
reuniões, na militância, nas manifestações, nas discussões, na prisão, nas
ações armadas ou não, nos treinamentos, na clandestinidade, no Brasil ou no
exterior, no exílio. O diferencial do nosso livro caracteriza-se pela revelação
do lado humano e afetivo daqueles que não aceitaram a prepotência do Golpe de
64, concebido e engendrado nos Estados Unidos”.
De fato, se
em alguns relatos individuais as angústias e o heroísmo de militantes
socialistas nem sempre se acham realçados, na maioria dos textos e no seu
quadro geral se depreende uma história rica da vida de jovens, de homens e
mulheres na última ditadura, que, setores à direita queiram ou não, está na
agenda do mundo político do Brasil.
O livro vem numa luta que exige resposta da civilização brasileira aos
assassinatos até hoje encobertos. Mais precisamente, na batalha
incansável dos familiares dos mortos que continuam a busca dos corpos dos
filhos, pais e irmãos. “68
a geração que queria mudar o mundo” é parte
ativa da consciência do país que deseja uma punição exemplar para crimes
contra a humanidade, que são imprescritíveis por todas as convenções
internacionais do Direito.
O melhor e mais agradável em
“68 a
geração que queria mudar o mundo” é que ele não é um volume de teses.
Em seu conjunto lêem-se relatos plenos de frescor,
isso quer dizer, de sangue vivo, da hora, recuperado com o frescor da
memória. É um livro necessário, porque nele estão as chamadas fontes
primárias, as pessoas fora dos arquivos, contando o que viveram,
penaram ou mesmo imaginaram nos anos do terror da ditadura brasileira. Delas
vêm os documentos primários da luta dos malditos anos. É um livro urgente,
para ser lido e divulgado.
Nele hão de se debruçar historiadores, roteiristas,
cineastas, teatrólogos e jovens de todo o gênero e escolas para que compreendam
o mundo que ainda lhes é desconhecido, de pessoas iguais a eles, que viveram,
morreram ou escaparam por um triz, emsituação-limite.
São relatos da vida clandestina, de acontecimentos inimagináveis de
“expropriações revolucionárias”, ou como a repressão as chamava, de assaltos a bancos por terroristas.
Histórias de treinamento de guerrilha no Brasil, um documento vivo e inédito,
e de amor, do amor que sobrevivia entre as porradas e tensões.
O curioso, para muitos, é que nele há também lugar para o humor, pois que os
tempos eram duríssimos, mas os homens além do terror e crimes sofridos,
também possuíam ou procuravam motivos para rir. Como neste caso, digno de
Stanislaw Ponte Preta, o grande humorista que desmontou o ridículo da
ditadura brasileira. Copio trecho do depoimento de Emílio Myra
e Lopez:
“Um colega seu de ofício (do advogado Lino Ventura) defendia uma mulher
e durante o seu processo ocorre o fato, verídico e registrado em seus autos.
O advogado de sua defesa inquire o sargento, sua testemunha de acusação.
- Senhor sargento, por que o senhor acusa minha cliente de ser subversiva?
- Pelo material apreendido em sua casa – responde.
- Mas, especificamente, que material?
- Umas cartas...
O advogado prossegue.
- Sargento, seriam estas castas, às quais se refere?
- Sim, senhor, são estas cartas.
- Mas sargento, estas cartas estão escritas em idioma
francês, o senhor tem conhecimento do idioma francês?
- Não senhor – responde o sargento para espanto e
risos no plenário.
Insiste o advogado.
- Senhor sargento, se o senhor não conhece o idioma
francês, como pode, por estas cartas, acusar minha cliente de ser subversiva?
- Mas é claro – prossegue convicto
o sargento – eu li nas entrelinhas”.
Há outros, muitos outras
histórias, casos, depoimentos, poemas, entre o drama, o trágico e a comédia.
Há pelo menos 169 outros relatos. Mas tenham pena deste digitador.
Leiam o livro.
Agenda de lançamentos:
24 de agosto
– Brasília, no Ministério da Justiça
25 ou 26 de agosto – Porto Alegre
15 de setembro
– Rio de Janeiro – ALERJ
24 de setembro
– São Paulo – Memorial da Resistência
30 de setembro
– Recife
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