Aeronáutica monitorou políticos após ditadura

Brasília, 13 de abril de 2011.

 

 

 

 

Cerca de 1.300 relatórios foram produzidos nos governos Sarney, Collor e

Itamar

 

Documentos inéditos da Aeronáutica poderão ser consultados a partir de hoje

no Arquivo Nacional, em Brasília

 

RUBENS VALENTE

JOÃO CARLOS MAGALHÃES

DE BRASÍLIA

 

Documentos que serão liberados a partir de hoje pelo Arquivo Nacional

revelam que a Aeronáutica monitorou políticos, partidos e organizações de

esquerda mesmo após o fim da ditadura militar, nos governos civis de José

Sarney (1985-1990), Fernando Collor (1990-1992) e Itamar Franco (1992-1994).

Cerca de 50 mil documentos (150 mil páginas) foram entregues em 2010 por

ordem do comandante da Aeronáutica, Juniti Saito. É a primeira vez, desde o

fim da ditadura, que um serviço de inteligência das Forças Armadas entrega

documentos ao Arquivo, vinculado ao Ministério da Justiça.

Ontem, o Arquivo disponibilizou uma listagem com os títulos de 35 mil

documentos. As íntegras serão divulgadas a partir de hoje.

Outros 15 mil papéis, segundo o Arquivo, conteriam informações relacionadas

à intimidade, vida privada, honra e imagem dos investigados e, por isso, só

poderão ser consultados pelos próprios ou pelos parentes.

As investigações da Aeronáutica eram produzidas pelo Cisa (Centro de

Informações e Segurança), que mantinha escritórios nos sete comandos aéreos

do país. Cerca de 1.190 documentos foram produzidos durante o governo

Sarney, 111 no governo Collor e 23 sob Itamar, todos hoje senadores.

O restante dos documentos foi produzido durante a ditadura (1964-1985).

A lista revela que, na gestão Collor, os militares manifestavam interesse

sobre o PT -em especial uma de suas tendências mais à esquerda, a

Convergência Socialista-, o PPS, o PCB e as relações entre brasileiros e

ONGs com o governo de Cuba.

O Cisa fez relatório sobre as eleições do sindicato dos metalúrgicos de

Osasco (SP) e a 1ª Romaria do Trabalhador, realizada em 1991. A situação da

esquerda no Chile e na Bolívia também foram objeto de relatórios.

 

SEM-TERRA

Movimentos de trabalhadores sem-terra foram objeto de atenção nos três

governos. A CPT (Comissão Pastoral da Terra), jornalistas estrangeiros e

organizações sindicais de diversos setores também foram acompanhados na

gestão de Sarney.

A história da liberação dos papéis da Aeronáutica começou em março de 2008,

quando a OAB pediu providências da Procuradoria-Geral de Justiça Militar

para que fosse averiguada a eventual destruição de documentos históricos,

incluindo os relacionados à guerrilha do Araguaia, ocorrida nos anos 70.

A procuradora-geral de Justiça Militar, Cláudia Márcia Luz, solicitou

informações aos comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Apenas a

Aeronáutica entregou documentos.

Segundo a assessoria do MPM (Ministério Público Militar), a Marinha e o

Exército responderam em 2008 ter seguido a legislação que tratava da

destruição de documentos, mas não esclareceram se possuíam arquivos

semelhantes aos da FAB.