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Brasília,
18 de novembro de 2010.
Brasil
17 de Novembro de 2010
- 11h57
Paulo Abraão participa de debate sobre
"Camponeses do Araguaia"
Na última sexta-feira (12), após exibição
do documentário “Camponeses do Araguaia – A guerrilha vista por
dentro” na Cinemateca Brasileira, o presidente da Comissão de Anistia,
participou de debate a respeito do filme e o classificou como “um
instrumento de reparação” aos anistiados.
Zagallo, Vandré, Paulo Abraão e Buonicore
debatem o documentário "Camponeses do Araguaia"
Além de Paulo Abrão, o diretor do filme, Vandré Fernandes
e o produtor, Rogério Zagallo também sentaram à mesa, ao lado do
representante da Fundação Maurício Grabois, Augusto
Buonicore.
O documentário é composto por entrevistas com camponeses sobre a amizade com
os “paulistas”, como chamavam os militantes do PC do B que
lutaram na Guerrilha do Araguaia durante a Ditadura Militar. Durante os
relatos, os camponeses revelam as atrocidades cometidas pelo exército
brasileiro na região entre 1972 e 1974.
A comissão de anistia existe há quatro anos e há pelo menos dois realiza uma
caravana que roda o Brasil ouvindo depoimentos de pessoas que viveram a
repressão do Regime Militar. No debate, Paulo Abraão disse considerar o “Camponeses do Araguaia” uma das mais
importantes produções nos “quatro anos de luta por uma mudança de
concepção da Comissão de Anistia”, que, segundo o seu presidente, deve
ser o de valorizar a memória, e não o esquecimento. O motivo de tal elogio é
porque o filme “visibiliza os
camponeses”, defendeu.
Sem confiança no Estado
Esta comissão colheu uma série de relatos de camponeses da região onde
ocorreu a Guerrilha do Araguaia e impressionou-se com a dificuldade desses
cidadãos confiarem no Estado, até por constantes constrangimentos que
continuaram sofrendo até o início dos anos 2000 a cada relato que
concordavam em
dar. Abraão explicou que sistematicamente militares se
dirigiam aos camponeses para intimidá-los após cada depoimento.
A iniciativa de viajar até o Araguaia para colher relatos significou uma
virada no papel político da comissão, na avaliação do seu presidente.
“Até então só recebíamos documentos, até que chegaram os relatos da
Guerrilha do Araguaia, sobre os quais não havia nenhum documento, nenhuma
prova. Tomamos então uma decisão ousada, de ir lá colher depoimentos. O
Estado se obrigou a produzir provas”, relata Paulo Abraão.
Negação da história
Abraão sustentou também que até pouco tempo as Forças Armadas negavam a
Guerrilha da Araguaia. Para ele, esta situação só se alterou a partir da
decisão judicial que determinou a busca de corpos e recuperação da história
da guerrilha.
Sensível à dificuldade daquele povo de ser ouvido, o presidente da comissão
de anistia declarou ainda que a reparação dos camponeses é
diferente de outros processos de reparação, pois eles não eram militantes.
Este tema foi, inclusive, tema de debate dentro da comissão, que chegou à
conclusão de que se eles não eram militantes, este era mais um motivo para a
reparação. Para Abraão esta foi uma segunda virada política da instituição,
pois estavam “enfrentando o negacionismo
histórico que havia prevalecido até os dias de hoje”, e completou, emocionado; “podemos levar adiante o que
a geração que nos antecedeu não teve condições de fazer. Trata-se de uma
responsabilidade da nossa geração com esta história”.
Paulo Abraão falou ainda de uma crescente sensibilização em nível
internacional à questão dos Direitos Humanos, defendeu o julgamento de crimes
militares no Brasil, citando exemplos como o Chile e a Argentina, e comentou
a decisão do juiz que decidiu conceder liminar suspendendo o pagamento dos
camponeses do Araguaia, sugerindo que o filme seja enviado ao juiz.
Abraão despediu-se emocionado, agradecendo “profundamente” a
sensibilidade do documentário, e classificando-o como “mais um
instrumento de luta por verdade, justiça e memória”.
O documentário
A ideia de fazer as filmagens surgiu com a proposta
da Fundação Maurício Grabois ao Vandré de captar
imagens do ato de julgamento de anistia em São Domingos
do Araguaia. Em resposta, Vandré propôs fazer um documentário e convidou o
Rogério Zagalo, conforme relatou o diretor durante o debate. Assim se
construiu o caminho para a realização de um projeto que concorre a premiações
em festivais no Rio de Janeiro e em São Paulo e que retoma uma história tão cara à
luta pela democracia no Brasil.
Augusto Buonicore o descreveu como “a
história contada a partir da ótica de quem sofreu a opressão, e não uma peça
propagandista”. Buonicore também denunciou o
sistemático ataque das grandes empresas de mídia à Comissão de Anistia.
ALN
O ex-combatente da Aliança Libertadora Nacional (ALN) Takao
Amano esteve presente ao debate, e concordou com a
tese de Paulo Abraão de que o Brasil trata a questão da ditadura militar com
uma lógica de negação, diferente de outros países da América Latina. Ao
valorizar o trabalho da Comissão de Anistia e do Ministério da Justiça nos
últimos anos, Takao desabafou que o mais marcante
do processo de repressão é a perda de muitos amigos e companheiros, além da
“barbaridade da tortura”. Takao Amano termina sua declaração, entretanto, de forma
otimista, constatando que as mortes não foram em vão, visto que
“conseguimos restabelecer a democracia”.
Fonte: Fundação Maurício Grabois
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