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Brasília,
19 de abril de 2011.
Papéis repassados ao Arquivo
Nacional relatam espionagem de militantes
Jailton de Carvalho
BRASÍLIA. A supervisora do Núcleo de Acervos do Regime Militar do Arquivo
Nacional, Vivien Ishaq,
afirmou ontem que é impressionante o número de pessoas espionadas pelo
serviço de inteligência da Aeronáutica durante a ditadura militar. Ela chegou
a esta conclusão depois de analisar parte dos 50 mil documentos repassados
pela Aeronáutica ao Arquivo Nacional ano passado. Os documentos estão, desde
ontem, liberados à pesquisa. Parte dos papéis - que dizem respeito à vida
pessoal de ex-militantes políticos - só pode ser acessada por eles ou por
pessoas devidamente autorizadas pelos investigados.
- A quantidade de relatórios e de infiltrados (entre os movimentos de
esquerda) é muito grande. Sobre o que você imaginar tem relatório. Tem gente
que diz: "Achei que fazia as coisas na clandestinidade. Agora vejo que
estava sendo monitorado" - afirmou Vivien.
Entre os papéis estão relatos sobre a Guerrilha do Araguaia, organizações
como a VAR Palmares e Colina, que tiveram a participação da presidente Dilma Rousseff, e até sobre o Exército Vermelho japonês. Num
vasto painel da história da ditadura, os arquivos abrangem praticamente todos
os episódios relacionados à esquerda e à repressão, no período entre a década
de 60 e o início dos anos 90. Um dos documentos aponta o Araguaia como área
de potencial foco guerrilheiro mesmo antes da descoberta da guerrilha do
PCdoB na região.
Entre os registros também constam comentários sobre necessidade de se
"neutralizar" alguns militantes de esquerda mais
atuantes. Para Vivien, o termo pode ser
interpretado como uma clara ordem para matar. Segundo ela, agora é fácil conferir
se as ordens foram mesmo cumpridas. Bastaria confrontar as informações do
relatório com o destino conhecido de cada militante mencionado nos registros
internos. Nos novos arquivos, estão ainda atas das reuniões do Conselho de
Segurança Nacional.
Para Vivien, os papéis indicam o grau de
conhecimento e comprometimento de parte da cúpula militar com a repressão
política. Até hoje alguns militares sustentam a versão de que os presidentes
daquele período desconheciam o grau de violência da repressão contra
adversários do regime. A tortura seria obra clandestina de setores da extrema
direita. Os papéis foram recebidos pelo Arquivo Nacional em fevereiro do ano
passado. Os documentos foram digitalizados e devidamente registrados, antes
de liberados à consulta pública.
A massa de documentos chegou ao Arquivo a partir de uma ordem expedida pela
Casa Civil em 2005, quando a área era chefiada pela presidente Dilma. Toda
estrutura do Estado foi orientada a fazer levantamento sobre eventuais
arquivos produzidos durante a ditadura. A partir daí, os documentos deveriam
ser repassados ao Arquivo Nacional. A Aeronáutica foi o primeiro órgão a
cumprir as ordens. O Arquivo Nacional aguarda agora a contribuição de outras
áreas do governo, entre elas o Ministério da Educação.
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