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Até Pelé foi espionado por
polícia política na ditadura |
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Brasília,
23 de agosto de 2011.
Arquivos
antigos mostram que ditadura fichou até Pelé
Serão abertos para consultas, a partir desta semana, arquivos do extinto Departamento de Ordem Política e Social (Dops) descobertos por acaso, em março do ano passado, em Santos (SP). São 45 mil fichas e 11.666
prontuários, que estavam apodrecendo numa sala do Palácio de Polícia. O material foi transferido para o
Arquivo Público do Estado e agora, após higienizado,
recuperado e organizado, será colocado à disposição de pesquisadores e
pessoas interessadas. Trata-se de um acervo que, embora
regional, ajuda a iluminar melhor os porões da ditadura militar. Ele confirma, em primeiro lugar, a
fúria da polícia política no trabalho de vigiar e perseguir os cidadãos
suspeitos de fazer oposição ao regime. Nem o nome mais ilustre de Santos,
Pelé, escapou dessa fúria: o arquivo tem um prontuário com o nome dele. Os documentos também revelam que
agentes policiais ligados à repressão não aceitaram a abertura política e a
anistia ocorridas nos anos 80 e, à revelia da lei, continuaram espionando
pessoas que consideravam de esquerda. Embora o Dops tenha sido extinto em
1983, existem fichas e prontuários no arquivo que datam de 1986 e suspeita-se
que tenham prosseguido até 1988. Não se trata, porém, de um arquivo
íntegro. De acordo com o historiador Carlos Bacellar, coordenador do Arquivo Público, tudo indica
que, em algum momento, ele passou por uma “limpeza”. Já se
constatou a ausência de 160 prontuários. Eles estão mencionados no fichário,
mas não foram encontrados. O caso mais notório é o do governador
Mário Covas. Por se opor à ditadura, ele foi
cassado e lançado na lista dos simpatizantes do comunismo e tinha seus passos
estritamente vigiados. Suspeita-se que, assim como já ocorreu
com outros arquivos mantidos por policiais e órgãos das Forças Armadas, a
“limpeza” se destinou, sobretudo, a proteger os agentes da
repressão de futuras acusações de tortura, desaparecimento e outras violações
de direitos humanos. “Não se descarta a hipótese de
parte desse material estar em poder de agentes do Estado por descuido”,
diz Bacellar. “Era comum, durante o trabalho
policial, levarem pastas para casa. Vamos procurar mais
arquivos nas delegacias do Estado e consultar policiais.” Postas em pé, uma ao lado da outra, as
pastas e fichas do arquivo que será aberto ao público somam Lá está registrado que, às 14 horas de
9 de outubro de 1972, desembarcou Por seu discurso em defesa da justiça
social e dos direitos humanos, o bispo era constantemente vigiado. Até
encontros com beatas da diocese, para uma campanha em defesa dos valores da
família católica, foram monitorados. A reunião que ele manteve com Covas no
dia 17 de janeiro de 1979 está registrada. No alentado prontuário com seu nome, o
bispo é definido como “personalidade comunista” e
“astucioso e envolvente”. O uso de expressões depreciativas como
essas era comum. Luiz Carlos Prestes é definido por um
agente como “ex-dirigente do extinto, espúrio e clandestino PCB”. O nome de Edson Arantes do Nascimento, o
Pelé, está no prontuário 4311. A pasta, magra, tem origem num fato
ocorrido em 21 de outubro de 1970. Naquele dia, durante homenagem que recebeu
da própria polícia de Santos, o rei do futebol foi cumprimentado por um
servidor público, que lhe entregou cópia de manifesto a favor de indulto para
presos políticos anistia que só viria bem mais tarde, em 1979. Embora o ato fosse alheio à vontade de
Pelé, a polícia achou mais seguro abrir uma pasta com seu nome. Providências tolas como essa ajudaram a
criar a lenda de que a polícia política era totalmente incompetente. Segundo Bacellar,
contudo, o arquivo de Santos mostra que a máquina repressora funcionava bem:
“Havia uma constante troca de informações entre os órgãos do interior e
a central de informações, O intercâmbio com os
órgãos de informação das Forças Armadas também funcionava bem.” |