LEGALIDADE - 50 ANOS

Brasília, 24 de agosto de 2011.

 

 

JORNAL DO COMÉRCIO

UNE transferiu sede para Porto Alegre para resistir


Ex-presidente da entidade lembra que sede foi transferida à Capital gaúcha na campanha

Samir Oliveira

GABRIELA DI BELLA/JC

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Aldo Arantes considera que mobilização estudantil foi decisiva no apoio a Leonel Brizola

Em agosto de 1961, o goiano Aldo Silva Arantes, de 22 anos, desconfiava de que algo não ia bem no Palácio do Planalto. Na antessala do gabinete presidencial, percebeu a irritação dos três ministros militares que esperavam por uma reunião com Jânio Quadros.

Indiferente, o presidente da República resolveu deixar os chefes das três armas aguardando e priorizou a audiência com o jovem aluno de Direito que acabara de assumir o comando da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Hoje, aos 72 anos, Aldo Arantes não tem dúvidas: “Os militares foram dar um xeque-mate no presidente”. Menos de uma semana depois do encontro, Jânio Quadros renunciou, no dia 25 de agosto de 1961.

Ao saber que os militares desejavam impedir a posse do vice-presidente João Goulart, que se encontrava em viagem oficial à China, Arantes tomou duas decisões: decretou uma greve nacional dos estudantes e transferiu a sede da UNE para Porto Alegre.

Na Capital gaúcha, se uniu ao governador Leonel Brizola, passando a discursar na Cadeia da Legalidade. Ele lembra da paisagem que encontrou ao chegar na Praça da Matriz. “Havia canhões antiaéreos. Era um clima de guerra”, resume.

Dos porões do Palácio Piratini, a voz de Arantes ecoou pelo Brasil. Ele considera que a mobilização estudantil foi fundamental para a implosão do embrionário golpe de Estado.

“Aroldo de Lima era líder estudantil na época e me relatou como a Legalidade chegou até Salvador, na Bahia. Centenas de estudantes ficavam nas praças para ouvir o Brizola e a mim no rádio”, conta.

Arantes observa que, à época, a UNE era a única instituição com capacidade de protagonizar um levante nacional a favor da posse de João Goulart. “Era a única entidade nacional com força e capacidade de mobilização. Não havia ainda as centrais sindicais”, compara.

Para o ex-líder estudantil, a atuação da UNE foi tão significativa que o próprio Jango - após assumir como presidente num regime parlamentarista - visitou a sede da organização, na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro.

“Pela primeira vez na história um presidente da República esteve na UNE. Ele levou todos os ministros, inclusive os chefes militares, para agradecer aos estudantes pela mobilização na Legalidade”, recorda.

Entrincheirado no Piratini, Aldo Arantes foi um espectador privilegiado das articulações políticas naquele turbulento período. Testemunhou a chegada de João Goulart a Porto Alegre e as conversas que o levaram a aceitar o parlamentarismo.

“Tancredo Neves veio para convencer Jango a aceitar o regime parlamentarista. Eu estava dentro do Palácio quando isso ocorreu e o Brizola não aceitou”, comenta.

E enquanto Jango acenava para a população na sacada do Piratini, no segundo andar, Arantes assistia a tudo de dentro do Palácio. “Devia ter umas 5 mil pessoas na rua. E foi uma situação contraditória, porque alguns segmentos acabaram vaiando o presidente (por ter firmado acordo para assumir sob o sistema parlamentarista de governo)”, revela.

Aldo Arantes deixou o Rio Grande do Sul em 6 de setembro, um dia após Jango voar para Brasília para assumir a presidência da República, tendo Tancredo Neves como seu primeiro-ministro.

Após todo o episódio, Arantes se tornou amigo pessoal de Leonel Brizola. Ao se despedir do governador, recebeu um abraço e um revólver calibre 38.

O abraço ele carrega até hoje em sua lembrança. E a arma acabou indo parar nas mãos de um guerrilheiro, após 1964, quando os militares - apoiados por setores da sociedade civil - derrubaram Jango e instauraram uma ditadura que duraria até 1985.

“Foi um prejuízo grande ter que dar o revólver. Mas, naquele momento, nem documentos a gente podia guardar, imagina armas”, brinca.

 

Mulheres foram protagonistas do movimento de 1961

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Erika Kramer trabalhou nos porões do Piratini e traduzia discursos. CLAUDIO FACHEL/PALÁCIO PIRATINI/JC

A presença feminina na Campanha da Legalidade foi visível em passeatas, protestos e mobilizações da população gaúcha em defesa da Constituição e da posse do vice-presidente João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961.

Entre as participações ilustres, nomes como os de Neusa e Francisca Brizola (esposa e irmã de Leonel Brizola), Jurema da Rocha e Mila Cauduro (esposas dos secretários da Justiça e Educação, Francisco Brochado da Rocha e Raul Cauduro, em 1961), Lara de Lemos (coautora do Hino da Legalidade) e Ione Risco (mulher de Raphael Risco, secretário do PTB).

A estudante de Jornalismo Erika Coester Kramer, na época com 23 anos, teve papel fundamental dentro dos porões do Piratini. Além de trabalhar nas pautas do movimento, traduzia para o alemão os discursos e informativos.

Natural de Pelotas, Erika trabalhou nos porões do Piratini durante 12 dias, e conta que os estudantes de Jornalismo foram chamados para fazer parte da equipe de comunicadores da Legalidade, já que os profissionais estavam ocupados com os veículos de comunicação da época.

“No início, nós fazíamos algumas escutas dentro de ondas curtas e médias, para ver o que o mundo estava falando do movimento”, recorda. Quando foi implantada a Cadeia da Legalidade, Erika tinha que produzir 24 horas de programação com uma equipe de 20 jornalistas.

A equipe que trabalhava nos porões do Palácio sobreviveu com muito café, sanduíche e cigarro. A relação do então governador Leonel Brizola com os profissionais que estavam no porão era bastante amistosa. Conforme Erika, Brizola aparecia de madrugada nos porões, fumava um cigarro, tomava um café, perguntava como todos estavam e dava apoio.