Mídia, golpes e
tortura
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Brasília,
24 de novembro de 2010. Emiliano José 23 de novembro de 2010 às 10:58h Talvez pudéssemos inverter um pouco a ordem
das coisas: que tal, ao invés de divulgar o relato de processos do STM sobre pessoas
covardemente torturadas, como o faz agora o secretariado da mídia golpista
brasileira, perguntássemos sobre qual o papel dessa mesma mídia na
implantação da ditadura militar? Não seria algo elucidativo, educativo para
as novas gerações? Que tal compreender a verdadeira natureza de nossa mídia
hegemônica para, então, entender por que, nesse momento, usando processos
inteiramente submetidos à ordem castrense, ao terror ditatorial, tenta
atingir a presidente da República, recentemente eleita, numa espécie de
vingança pela derrota que sofreu? Perguntar por que ela não se conforma com
essa nova derrota, a terceira derrota da mídia nas últimas eleições,
derrotada pela opinião pública brasileira. Com que direito quer um terceiro
turno, ilegítimo, revelador apenas de seus ressentimentos? Eu insisto: no Brasil a Casa Grande não
descansa. E a principal voz da Casa Grande no Brasil é a mídia hegemônica,
aquele grupo de poucas famílias que se pretende o intérprete da realidade
brasileira, apesar de há muito ter deixado de sê-lo. Não vou retroceder muito
no tempo. Não vou esmiuçar o papel destacado de nossa mídia na tentativa de
golpe contra o presidente Getúlio Vargas. O quartel-general do golpe era
permanentemente orientado pela mídia. A mídia hegemônica de então e o golpe
já quase consumado foram derrotados pelo suicídio do presidente. O que pretendo mesmo é refrescar a memória
ou informar um pouco que seja sobre o papel de nossa mídia no golpe de 1964.
Não se trata apenas de ela ter elaborado todo o discurso que deu sustentação
ao golpe contra o presidente Jango Goulart. Não se trata disso somente. Trata-se do fato, por demais evidente, e há
vasto repertório bibliográfico a respeito, de que a mídia participou
diretamente das articulações golpistas. Ela derrubou Goulart lado a lado com
os militares golpistas. Reuniu-se com eles para preparar o golpe. Não tem
como se defender disso. É algo que hoje já pertence à história. Com isso se quer dizer, e creio que é
preciso insistir nisso, que a mídia hegemônica brasileira foi um ator
fundamental na construção de uma ditadura sanguinária, terrorista no Brasil,
a mesma que vai torturar covardemente homens, mulheres, crianças, que vai
desaparecer com pessoas depois de desfigurá-las, provocar suicídios, que será
capaz de todas as crueldades, perversidades para garantir a sua continuidade
no poder por 21 anos. A Rede Globo, criada lá pelos finais de
1969, não foi uma simples iniciativa empresarial. Foi um empreendimento
político. Com a Rede Globo pretendeu-se unificar o discurso da ditadura,
justificar tudo ela pretendesse, inclusive os assassinatos, o terrorismo que
ela praticava cotidianamente. Inúmeras vezes assistíamos, no Jornal Nacional,
notícias dando conta do atropelamento de companheiros, da morte de um
militante por outro, versões montadas pela repressão para justificar a morte
nas masmorras da ditadura. A Rede Globo encarnava e ecoava a voz do terror,
foi criada para tanto. E o grupo Globo é apenas parte de toda uma
estrutura midiática que deu sustentação à ditadura, embora talvez, então, a
parte mais importante. Não é difícil lembrar do terrível, do terrorista
general Garrastazu Médici, ditador, que dizia que bastava assistir ao Jornal
Nacional para perceber como tudo caminhava às mil maravilhas no Brasil. O
Jornal Nacional era o diário oficial da ditadura. Por isso, não há como nos surpreendermos
com a tentativa, canhestra, de tentar desqualificar a presidente Dilma,
pinçando aspectos do vasto processo buscado nos arquivos do STM, como a
matéria de 19 de novembro, de O Globo. Não nos surpreendemos, mas não há como
não nos indignarmos. É a voz da ditadura que volta, são os mesmos métodos que
voltam, embora, agora, por impossibilidade, a tortura física não possa
voltar. A um jornalismo sério, que tivesse
compromisso com a história, a um jornalismo que tivesse alguma ligação, tênue
que fosse, com a idéia de democracia, que se preocupasse com a educação das
novas gerações, caberia discutir a monstruosidade da tortura, mostrar o que
ela tem de lesa-humanidade, mostrar a necessidade de evitar que ela exista,
inclusive nas cadeias brasileiras de hoje. Mostrar que qualquer processo que
envolva tortura não merece qualquer crédito. Mas, não. O jornalismo realmente existente vai pinçar
aspectos no processo que eventualmente desgastem a presidente da República.
Nos próximos dias, a mídia golpista vai se debruçar sobre isso, podem anotar.
É a tentativa do terceiro turno, evidência do ressentimento pela terceira
derrota – a mídia perdeu em 2002 e 2006, quando Lula venceu, e perdeu
agora, com a vitória de Dilma. Não se conforma, A Casa Grande não descansa. Nem sei, nem vou procurar saber sobre todo
o processo que envolveu a presidente. Escrevi vários livros sobre a ditadura,
inclusive sobre Carlos Lamarca e Carlos Marighella, que tangenciam
organizações revolucionárias pelas quais a presidente Dilma passou – e
que orgulho ter militado em organizações revolucionárias. Não me detive, no
entanto, na trajetória específica da presidente Dilma Roussef, nem caberia. Mas será que os jornalistas que têm feito o
papel de pescadores de leads e subleads negativos, de títulos
desqualificadores da presidente têm alguma noção do que seja a tortura?
Imagino que não, até porque só obedecem ordens, a pauta é previamente
pensada, ordenada, e depois se faz a matéria. Repito aqui o que escrevi em um dos meus
livros, valendo-me das contribuições do psicanalista Hélio Pellegrino. A
tortura nunca é mero procedimento técnico destinado à coleta rápida de
informações. É também isso, mas nunca apenas isso. Ela é a expressão
tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, expressão da
ditadura militar de então. Ela visa à destruição do ser humano. À custa de um sofrimento corporal
inimaginável, teoricamente insuportável, a tortura pretende separar corpo e
mente, instalar a guerra entre um e outro, semear a discórdia entre ambos. O
corpo torna-se um inimigo – com sua dor, atormenta o torturado,
persegue o torturado. A mente vai para um lado, o corpo sofrido para outro. O
torturado fica exposto ao sol e à chuva, ao desabrigo absoluto, sem chão,
entregue às ansiedades inconscientes mais primitivas. E apesar disso, tantas
vezes, tantos de nós, quando não fomos trucidados e mortos na tortura,
resistimos a esse terror, e saímos inteiros, ou quase inteiros, dessa
situação-limite. O que vale um processo feito sob a
ditadura? O que valem declarações tiradas sob tortura? Responderia que valem
apenas para revelar o que foi o terror, para revelar o que fizeram com as
vítimas desse terror. Por que nos impressionamos e nos indignamos tanto com
as vítimas do nazi-fascismo, inclusive nossa mídia, impressão e indignação
justas, e somos, lá eles como costumam dizer os baianos, tão condescendentes
com o terror da ditadura, com as torturas dos assassinos do período
1964-1985? Eu compreendendo por que a mídia age assim
com a nossa memória histórica, e já o disse antes: age assim pela simples
razão de que ela tem tudo a ver com a gênese da ditadura, porque dela não
pode se apartar, lamentavelmente. Por isso, nos preparemos para a luta dos
próximos dias: ela vai buscar nos porões da ditadura o que possa servir aos
seus propósitos de lutar contra o governo democrático, republicano e popular
da presidente Dilma. E nos encontrará onde sempre estivemos: na luta
intransigente, isso mesmo, intransigente, a favor da democracia, dos direitos
humanos, e contra toda sorte de crimes contra a humanidade. *Emiliano José é jornalista, escritor.
Emiliano JoséEmiliano José é jornalista, escritor, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. www.emilianojose.com.br |